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Leonardo Sakamoto

Feliz Primeiro de Maio. Feliz aniversário, Pedro

Leonardo Sakamoto

01/05/2012 12h57

Pedro perdeu a conta das vezes que passou frio, ensopado pelas trovoadas amazônicas, debaixo da tenda de lona amarela que servia como casa durante os dias de semana.

Nem bem amanhecia, ele engolia café preto engrossado com farinha de mandioca, abraçava a motosserra de 14 quilos e começava a transformar a floresta amazônica em cerca para o gado do patrão.

Analfabeto, permaneceu apenas dez dias em uma sala de aula por causa da ação de pistoleiros no povoado onde ficava a escola. Depois, nunca mais.

Trabalhava com motosserra há dois anos, fazendo 30 estacas por dia a partir de sapucaias, taúbas e canelas tão grossas que dois homens feitos não conseguiam abraçá-las.

Passou fome, experimentou dengue e durante dois anos não recebeu um centavo pelo serviço, só comida.

"Trabalhar com serra é o jeito. Senão, a gente morre de fome." Não sabia a data do seu aniversário e nem o que se comemorava no 1º de maio, dia em que foi encontrado pela equipe do Ministério do Trabalho e Emprego durante fiscalização no Pará.

Denúncias de maus-tratos, condições degradantes e trabalho forçado foram constatados, levando à libertação de 28 pessoas, inclusive uma criança.

Ele, Pedro. Um escravo, aos 13 anos.

Finalizado o resgate, sentado ao lado deste repórter, ele disse que não queria ficar sempre por aquelas bandas. Um dia ele iria pegar a estrada, seguir para Marabá e de lá para o mundo. Queria ser motorista de caminhão.

Talvez para conhecer o Brasil, que está além das cercas da fazenda. Ou fugir da infância do ronco das motosserras, das noites molhadas na Amazônia, da falta de respeito com seu futuro.

Lá se vão nove anos desde que isso aconteceu. E 17 anos desde que o governo brasileiro criou o sistema de combate ao trabalho escravo, retirando mais de 42 mil pessoas dessas condições. Muito avançamos, mais ainda não vemos o fim da estrada.

Celebramos a luta em prol dos direitos dos trabalhadores em todo o mundo porque trabalhadores em busca de seus direitos foram mortos durante uma manifestação na Chicago de 1886. Na cidade norte-americana, uma frase gravada em um monumento diz: "Chegará o dia em que o nosso silêncio será mais poderoso do que as vozes que vocês estrangularam hoje".

Neste dia, os trabalhadores têm a oportunidade de dizer um não ao trabalho escravo no Brasil. Se já usaram o silêncio dos braços cruzados para conquistar direitos e redemocratizar o país, por que não em troca da dignidade de milhares de pessoas que não têm voz, mas nem por isso deixam de existir e produzir o que consumimos diariamente?

Feliz Primeiro de Maio. Feliz Dia do Trabalhador. Feliz aniversário, Pedro.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.