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Leonardo Sakamoto

Governador que "estupraria" ministro afirma que pode cortar o "saco"

Leonardo Sakamoto

21/05/2012 13h37

O governador do Estado do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, ao duvidar que Zeca do PT, seu desafeto e ex-governador, tenha uma expressiva votação ao cargo de vereador da capital Campo Grande em outubro, afirmou:

"Corto o meu saco se ele conquistar 30 mil votos."

A frase foi colhida pelo UOL Eleições. Em 2009, irritado com o Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar do governo federal, que proibia plantações em áreas do rio Paraguai, Puccinelli perguntou se o então ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, participaria da Meia-Maratona Internacional do Pantanal. Diante da resposta, afirmou, durante um evento:

"Eu o alcançaria e estupraria em praça pública."

Corto meu saco, estupro em praça pública… É deprimente a visão do estupro como instrumento de coação, punição ou controle que está embutida em seu discurso. Encaixa feito uma luva entre as práticas de alguns genocidas na Bósnia-Herzegovina ou em Ruanda e Burundi.

Desde sempre, o sexo foi usado como arma de dominação e ferramenta de hegemonia na humanidade. Não é de se estranhar, portanto, que uma derrota na vida política do governador seja, para ele, uma forma de castração. Que materializou no ato de rifar seus testículos. Provavelmente, em sua cabeça, um homem sem poder não é um homem e, portanto, não precisa da representação simbólica desse poder, do falo. Não é um touro e sim um boi, não é um reprodutor, mas sim gado para corte.

Seguindo esse raciocínio, qual o lugar na política para quem não possui bolas desde o nascedouro? O de uma vaca?

Se ele fizer análise de linha freudiana, adoraria ouvir uma de suas sessões.

Enfim, o governador poderia ter gastado os neurônios que usa com essas declarações constrangedoras tentando resolver problemas que afligem a população do Mato Grosso do Sul, como o turismo sexual, os fazendeiros que ignoram territórios indígenas, os danos ambientais causados pela expansão do setor agropecuário, o trabalho escravo em canaviais e carvoarias, enfim. Problemas que nem ele, nem Zeca do PT, conseguiram resolver como mandatários.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.