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O que MRV, Zara e Cosan têm em comum?

Leonardo Sakamoto

01/08/2012 13h33

Nesta terça (31), a empresa MRV Engenharia foi incluída na "lista suja" do trabalho escravo – cadastro mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República – por conta de resgates de trabalhadores em obras sob sua responsabilidade. Às 10h18 desta quarta (01), as ações da MRV chegaram a cair 6,18% na Bolsa de Valores de São Paulo, recuperaram-se um pouco e fecharam em queda de 3,86%.

No dia 16 de agosto de 2011, veio à público o resgate de trabalhadores em condições de escravidão contemporânea em oficinas de costura que forneciam para a Zara. A repercussão cruzou o Atlântico e, no dia 19 de agosto, as ações da espanhola Inditex, dona da Zara e de outras marcas de roupas, fecharam com uma queda de 3,72% na Bolsa de Madri. As ações chegaram a recuar mais de 4% ao longo do dia.

No dia 31 de dezembro de 2009, a Cosan, gigante do açúcar e álcool, foi inserida na "lista suja" por conta de trabalho análogo ao de escravo relacionado à sua unidade de Igarapava (SP). Após o feriado, as ações da empresa caíram nas bolsas. Por exemplo, sem contar quedas de outros dias, no dia 7 de janeiro, as ações tiveram desvalorização de 5,32% na Bovespa e os American Depositary Receipts da Cosan Limited caíram 3,46% na Bolsa de Nova Iorque. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social decidiu suspender, em caráter preventivo, "todas as operações com a empresa" até que ela saísse da lista. O Wal-Mart, entre outros mercados, divulgaram a suspensão de todas as compras de açúcar União e Da Barra.

A "lista suja" tem sido um dos principais instrumentos no combate a esse crime, através da pressão da opinião pública e da repressão econômica. Após a inclusão do infrator, instituições financeiras suspendem a contratação de financiamentos e o acesso ao crédito e empresas bloqueiam relações comerciais.

O que as três empresas têm em comum? Além de serem grandes (a Cosan, até o acordo com a Shell, era considerada a maior empresa de açúcar e álcool do mundo; a Inditex é uma das maiores empresas de vestuário do planeta; a MRV é a companhia de construção com o maior lucro das Américas no ano passado), todas sofreram com a reação do mercado por conta do envolvimento de seus nomes em casos de trabalho escravo contemporâneo. Porque o mercado é bom e quer proteger trabalhadores? Não, a questão não é moral, e sim de negócios. Percepção de risco ao investimento é a ideia.

O maior impacto real nesses casos não é a perda de consumidores devido a boicotes, porque a memória da população é feito fogo de palha, mas o temor de que investir em determinada empresa seja arriscado. Considerando que a) bancos públicos e privados, além de outras companhias, têm atuado para restringir os negócios com quem apresenta esse tipo de problema por conta de acordos empresariais ou pela ação direta do Conselho Monetário Nacional; b)  processos na Justiça por trabalho escravo têm alcançado somas milionárias; c) informações sobre o envolvimento em trabalho escravo são usadas, justa ou injustamente, para restrições comerciais internacionais; d) é lento o processo de construção de reputações de marcas e rápido o de destruí-las, não falta quem não queira correr esse risco.

E mesmo que essas quedas nas bolsas de valores, registradas acima, tenham desaparecido nos dias seguintes ao ocorrido, elas funcionam como um alerta para a empresa e para o setor em que está inserida. Há quem use isso para se aprimorar e operar dentro da lei, outros para desenvolver formas de mascarar melhor o problema.

Vira e mexe aparece alguém que chama de "comunista" os jornalistas que divulgam casos de trabalho escravo contemporâneo e suas repercussões. Dizem que isso é um desfavor à economia brasileira. Acho graça. Pois, que eu saiba, o capitalismo depende do livre acesso às informações para que decisões de negócios sejam tomadas considerando-se todas as variáveis possíveis. Pena que, por aqui, tanta gente tenha medo da transparência e de operar dentro das regras do jogo.

Atualizado às 18h para inclusão do valor de fechamento das ações da MRV.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto