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Tenho medo das histórias de superação individual. Como a do Joãozinho

Leonardo Sakamoto

22/08/2012 07h20

Recebi mensagens e alguns telefonemas bastante irritados por conta da história do Joãozinho, da qual tratei na semana passada. Em um post sobre que educação queremos e como chegaremos lá, escrevi que estava farto daquele papinho do self-made man de que professores e alunos podem conseguir vencer, com esforço individual, apesar de toda adversidade, "ser alguém na vida". Nessas horas, para embasar o argumento, surge sempre histórias do tipo "Joãozinho comia biscoitos de lama com insetos, tomava banho em rios fétidos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (às vezes, contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional". Rola até lágrima ao ouvir uma história assim.

Já participei de comissões julgadoras de prêmios de jornalismo e posso dizer que esse tipo de história faz a alegria de muitos jurados. Mas passa a seguinte mensagem: "se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade e de um bom professor, você é um verme nojento que merece nosso desprezo". Aí recebi reclamações da turma ligada a ações como "Amigos do Joãozinho". Um disse que não acreditava na "força interior" de cada um para superar as adversidades. E que histórias de superação são exemplos a serem seguidos.

Críticas anotadas e encaminhadas ao bispo, lembrei-me que o discurso da superação encontra eco em outra área da educação.

"Trabalhei cedo e isso moldou meu caráter." A frase, apesar de extremamente questionável, é repetida à exaustão quando criticamos o trabalho infantil. Até entendo que muita gente sinta que sua experiência de superação é bonita o suficiente para ser copiada pelo seu filho ou filha (dos outros, é claro). Mas será que não imaginam que o trabalho infantil, que atrapalha o desenvolvimento da criança, não precisa ser hereditário? E que a luta maior é por educação libertadora e não reprodutora de modelos de exploração – os mesmos modelos aos quais os pais foram submetidos?

O início do período de preparação da terra, plantio ou colheita em grandes municípios produtores agrícolas está relacionado ao abandono escolar nos municípios de nascimento e residência de trabalhadores. Há uma relação já comprovada entre a migração, os períodos de safra e o êxodo escolar. As crianças são levadas para ficar com a família (quando todos viajam juntos devido ao trabalho do pai), mas alguns adolescentes deixam estudos para conseguir serviço.

Vamos exemplificar isso com pessoas reais. Para fazer uma pesquisa em conjunto com a Universidade de Manchester, sobre como a pobreza gera mais pobreza, entrevistamos um grupo de pessoas que foram submetidas a condições extremas de exploração de trabalho no campo e só saíram dessas condições por intervenção direta do poder público. Selecionei três que representam um padrão:

Trabalhador 1: Estudou com um parente mas, até hoje, aos 44 anos, não sabe escrever nem o próprio nome. Começou a trabalhar para ajudar a família, que era pobre. Não se lembra quantos anos tinha quando começou a trabalhar, mas ainda era menino. Segundo ele, o pai sempre o fez trabalhar na roça para ajudá-lo. Chegou a frequentar a escola, mas abandonou para colaborar com a renda da família.

Trabalhador 2: Estudou até a 8ª série do ensino fundamental. Segundo ele, começou a trabalhar com 18 anos e não foi por necessidade familiar e sim para ganhar dinheiro para si mesmo. De acordo com o trabalhador, ele sempre gostou de trabalhar em fazenda. Possui 25 anos.

Trabalhador 3: Começou a trabalhar aos 14 anos porque a família era muito pobre. No início, com produção de hortaliças, depois foi para uma oficina mecânica, perto de onde os pais moravam. A primeira vez que deixou a escola foi aos sete anos de idade porque o pai não tinha como morar na cidade para que ele pudesse estudar e não havia escolas no local para onde ele se mudou. Depois, aos 14 anos, teve que trabalhar. E não podia continuar estudando porque o local onde ele trabalhava ficava a 30 quilômetros da escola mais próxima. Parou quando estava na 3ª série do ensino fundamental, sem conseguir ler muito bem. Continuou os estudos depois que casou, aos 20 anos, quando foi até o final o ensino médio, trabalhando de dia e estudando à noite. Tem 27 anos.

O que vemos é que ações como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e o Bolsa Família contribuem para manter a criança na escola. Mas não são suficientes. Muito menos garantem o interesse dos alunos na sua própria formação. Leitores questionam quando digo isso, defendendo que crianças e adolescentes não têm que gostar ou deixar de gostar de nada, que é obrigação deles aceitarem tudo o que é empurrado goela abaixo, como se um remédio amargo fosse bom simplesmente porque é amargo e que pessoas com pouca idade não têm ideia do que é melhor para elas. Pedagogia de sucesso…

Mas tanto sabem que fazem um cálculo que lhes parece racional, deixando uma escola que, a seu ver, não os levará a lugar nenhum porque não considera sua realidade, não foi pensada para suas necessidades, com professores desmotivados e despreparados a fim de tentar a sorte em uma droga de emprego em alguma fazenda, construção ou oficina nas capitais ou no interior do país atrás do "Sonho Brasileiro". Buscam o curto prazo, pois é nele que está a sua sobrevivência e a de sua família, mas também porque o sistema educacional e, neste caso, o Estado não consegue lhe mostrar algo além do horizonte. Isso quando não optam pelos convites sedutores da criminalidade. Nesses casos, é viver a vida louca, porque sabem que não existirá longo prazo para eles.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, a maioria das crianças que não possui acesso à educação básica começou a trabalhar em idade precoce. E vice-versa. Os altos índices de trabalho infantil, aliás, estão diretamente associados à queda na qualidade da educação e à desigualdade de gênero em um país – sim, as mulheres tendem a, como sempre, serem relegadas a segundo plano se uma família tiver que escolher quem será instruído. Problemas que se não corrigidos comprometem a capacidade nacional de desenvolvimento econômico e social. E, de acordo com a OIT, os meninos e meninas trabalhadores rurais tendem a estar entre os mais desfavorecidos entre todos.

A Organização Internacional do Trabalho recomenda que o itinerário de trabalho não deve começar com um emprego, mas com a educação, a formação ou a acumulação de experiência produtiva. Segundo o organismo das Nações Unidas, um fator que limita tais caminhos é exatamente a deserção escolar, além da inserção precoce ou precária no mercado de trabalho, uma gravidez não desejada ou entornos familiares ou sociais desajustados, entre outros.

O Brasil está conseguindo universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não está vindo acompanhado de um aumento significativo na qualidade da educação. Mesmo que os dados para a evolução dos primeiros anos de estudo estejam além do que o governo esperava no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), grande parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos. Agora, o Ministério da Educação está com uma proposta para fundir disciplinas. Acredita que o ensino médio está estagnado e defende que elas sejam reduzidas de 13 obrigatórias para quatro. O principal problema é esse mesmo? Ahã, senta lá, Aloisio.

Enquanto isso, o magistério no Brasil continua sendo tratado como profissão de segunda categoria.

Uma educação de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo?

O Joãozinho acha que sim. Mas eu duvido.

Veja também:
Consulte a nota do Ideb do seu Estado e saiba se ele atingiu a meta proposta pelo MEC

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto