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Leonardo Sakamoto

Uma babá sem uniforme. Um clube rico com a mesma quantidade de brancos e negros

Leonardo Sakamoto

18/01/2013 16h33

Lembro de uma vez, em Paúba, litoral norte de São Paulo, quando um casal passou, sorridente e de mãos dadas, à minha frente, seguido de perto por duas babás, cada uma cuidando de dois pimpolhos, devidamente uniformizadas na areia, em uma adaptação contemporânea de uma gravura do Brasil colonial de Debret ou Rugendas.

Babá que é obrigada a ir uniformizada à praia ou ao clube com os filhos dos patrões choca muita gente. Parece que o objetivo do desnecessário uniforme em um espaço público é deixar claro quem é quem nesse grande teatro social. Tanto que a ONG Educafro está defendendo, no Rio de Janeiro, que essa imposição do uniforme branco deixe de vigorar. Clubes refutam dizendo que se os sócios quiserem vir com babá em roupa normal, tudo bem, desde que usem sua cota de entrada para "convidados".

Melhor seria colocar a hipocrisia de lado e amarrar logo uma bola com correntes ou tatuar no braço o nome da família-proprietária da pessoa em questão. Com henna, é claro, para poder apagar e registrar outro nome depois. Porque o trabalhador pode até ter obtido a garantia legal da liberdade em maio de 1888, contudo, não raro, segue como instrumento descartável de trabalho.

A parte da titica que está flutuando todo mundo vê. É feia, recebe críticas de todos os lados. O horror, o horror! O drama é o que há no fundo e precisa de uma observação mais atenta para ser decifrado. E nem sempre uma descarga manda embora o que há nesse fundo. Ok, poderia ter usado um iceberg na analogia. Seria mais fino, mas definitivamente não provocaria o mesmo efeito.

Fui convidado a ir a um clube da classe alta paulistana tempos atrás. Não sei se foi o horário em que fui ou o azar que tive, mas as únicas pessoas negras presentes eram as babás uniformizadas e os empregados do estabelecimento. E, olha que eu procurei… É claro que o clube possui sócios negros, mas esses devem ser proporcionalmente tão poucos que não aparecerem em determinado horário. Ou rola um apartheid do tipo "sábados e domingos de manhã" só para caucasianos e asiáticos e convidados japoneses esquisitos.

Não creio que só a pequena participação relativa de negros entre o 1% mais rico da cidade – menor que a proporção de sua presença na sociedade – seja a causa do sumiço dos negros no clube. As decorrências indiretas da desigualdade étnica-social também estão presentes e se realimentam. A herança da escravidão se faz sentir ainda porque ela é constantemente reinventada. Muitas das adesões dos clubes, por exemplo, vêm através de conhecidos, pessoas que apresentam seus amigos que, por sua vez, acabam pleiteando um título. Ou seja, conectamos nossa rede social (atenção, povinho que acha que o mundo começou com o Facebook e o Twitter, estou falando de rede em sentido mais amplo) em outra.

Traduzindo: qual a chance de você, sendo muito rico em São Paulo, ter no seu círculo de amigos próximos pelo menos a mesma quantidade de negros e de brancos? "Ah, mas os negros também segregam!" Faça-me um favor a si mesmo e vá entender a história do movimento Hip Hop na capital paulista.

E sabendo como funciona a formação da nossa elite (segregando, separando, limitando, excluindo), a chance de um branquinho fazer contato com um negrinho quando criança é mínima. Fiz jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e só tive uma amiga negra na turma.

Depois tenho ainda que aturar os çábios que consideram cotas étnicas nas universidades públicas preconceito. "Ah, mas eu tenho amigos negros." Pode até ter. Mas você tem amigos negros a ponto de acabar com todo o preconceito que lhe foi ensinado ou incutido desde que era um mamífero genérico com cara de joelho?

A desproporcionalmente pequena quantidade de negros como representantes no Congresso Nacional, nas chefias de grandes empresas, como professores de universidades de prestígio, em grandes bancas de advocacia ou à frente de grandes hospitais e, por que não, no comando de grandes redações de jornalistas, deveria chocar tanto quanto as mucamababás em questão.

Já disse aqui que tenho vontade de jogar um litro de cândida na cabeça das "sinhás" que soltam um "minha empregada" ou a "minha moça", com aquela carga de posse, conferindo à fala um sentido como se fosse uma tábua de passar roupa, um objeto pessoal. Aliás, quando reclamei em um post do tamanho ridículo dos quartos de empregada e sugeri que, caso tenha que dormir no serviço, a contratada deva ter acesso a um quarto decente, longe da área de serviço, muitos reclamaram. Gostaria de saber como essas mesmas pessoas tratam suas babás. Como guarda-sol, canga ou baldinho?

Estou pedindo cota em clubes da elite paulistana? Nop. Aliás, sugiro comedimento a quem consuma dois ou três deles que estão no topo da lista. São frequentamos por pessoas ótimas, conscientes da sua cidade, mas – como meus amigos sócios mesmo atestam – não raro acabam funcionando como um local de reprodução de determinados comportamentos detestáveis, mesmo que informalmente.

No mais, considero aqueles punhados de riqueza cercados de muros por todos os lados como uma realidade paralela. Ou uma viagem de ácido por assim dizer, daquelas que, no final, a pessoa só consegue balbuciar: "Mano, lá dentro é um mundo muito doido! Eu vi coisas que não fazem sentido algum!"

Queria só viver em uma cidade em que os ambientes fossem mais coloridos e não de um só cor. Só não sei se todo mundo ia querer viver nessa sociedade também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.