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Leonardo Sakamoto

Adote as campanhas: "Se dirigir, não tuíte" e "Se usar o Facebook, não dirija"

Leonardo Sakamoto

29/01/2013 13h28

Já tinha me acostumado a uma São Paulo menos caótica até que o período de férias escolares acabou. E a volta às aulas, como acontece todos os anos, cria algumas cenas pitorescas. Nesta manhã, um SUV (o novo tanque de guerra das grandes cidades) cismava em não manter-se em sua faixa na avenida. Dentro, uma mãe segurando o volante com uma mão e digitando no celular com a outra. No banco de trás, os dois filhos repetiam os gestos da progenitora, teclando alucinadamente. Por um momento, pensei que os aparelhinhos fossem controles de videogame sem fio, uma vez que o carro comia vorazmente as faixas intermitentes da avenida feito o PacMan do meu saudoso Atari. O único ser que observava a via à sua frente era o pobre do cachorro, correndo de um lado e de outro, um tanto quanto ansioso por não poder abrir a porta e sair daquele inferno.

A caminho do interior do Estado dia desses, uma flecha de prata me ultrapassou enquanto digitava algo no celular. Fui ultrapassado por um tuíte!

Comentei isso com um jornalista amigo que consegue ser mais viciado em tecnologia do que este japonês aqui – e, olha, cumpro à risca meu estereótipo. Ele disse que eu ainda estava "pensando com a cabeça do passado". E que essa interação a todo o momento, com diferentes camadas de relacionamento imbricando-se umas nas outras, criam uma única teia de vivência, à qual não é mais possível "conectar-se", porque já estamos conectados, com trocas ocorrendo 24 horas por dia, 7 dias por semana…

Bem, o fato é: para fazer tudo isso do parágrafo acima, até onde eu saiba, é necessário estar vivo, correto? Então, uma coisa precede a outra em importância, certo?

Eu já pratiquei essa estupidez. E quando refleti sobre isso, senti-me o mais completo idiota, digno de pena.

Constatado isso, este blog vai abraçar as campanhas "Se dirigir, não tuíte", "Se usar o Facebook, não dirija" e "Quem não manda SMS ao volante, chega inteiro em casa".

Você que gosta de fazer essas coisas enquanto dirige é livre para não participar. Mas peço que, caso sofra um acidente grave, caso mate ou cause sequelas permanentes em alguma pessoa que não tenha nada a ver com sua incapacidade de viver em sociedade, por favor, poste as fotos no Instagram e explique o que fez.

Se curte tanto compartilhar tudo o que faz e se conectar a todo o momento sem o mínimo de bom senso, que o seu infortúnio – ao menos – sirva para lembrar que as pessoas sangram, quebram e morrem. E, ao contrário do que acontece nos jogos eletrônicos, elas só têm uma vida.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.