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Leonardo Sakamoto

Adoro recalls de automóveis! Pois o risco apimenta nossa vida

Leonardo Sakamoto

21/12/2013 11h26

Eu simplesmente adoro recalls. É nesse momento constrangedor para uma empresa que conseguimos, mesmo que por um átimo de tempo e através de uma fresta de porta entreaberta, entender o que eles pensam de nós.

Vamos pegar a última convocação, realizada pela Fiat para os proprietários de alguns modelos da picape Strada, visando à "substituição dos parafusos de fixação da haste de ancoragem do cinto de segurança do passageiro do banco dianteiro".

Cinto de segurança. Que, como todos sabemos, é um item secundário no veículo.

Diz o comunicado:

"O eventual risco de segurança ao consumidor se dá em face à utilização de um parafuso de menor comprimento (33 mm) em relação ao que foi concebido no projeto (38 mm), trazendo como consequência uma redução no comprimento útil de resistência, entre a porca e o parafuso, predispondo em caso de colisão a perda de ancoragem inferior do cinto, podendo afetar a segurança do usuário."

Traduzindo: "Gente, economizamos no material. Mas aí descobrimos que o cinto pode dar chabú e você virar suflê em uma batida".

Lembro das aulas de mecânica técnica e de resistência dos materiais (vocês não tem ideia do meu passado…), em que se discutia quanto de material seria necessário para determinada função. Se muito, gastava-se dinheiro à toa. Se pouco, podia colocar em risco um projeto e pessoas. Mas estamos falando de planejamento feitos para serem cumpridos, o que não inclui, neste caso, os de alguns veículos.

recall

E, é claro, que a visibilidade do recall será bem menor do que os comerciais do Strada com Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mal, agricultores japoneses e patos de borracha. com aquela musiquinha "un, dos, tres!", que se infiltraram no submundo de nossa consciência.

Dizer que falhas e erros não vão acontecer nessa vida é ficção. Mas o peso da responsabilidade é diferente, dependendo do poder econômico de quem comete o erro. Uma empresa de automóveis pode se dar ao luxo de apresentar uma falha em um sistema que salva vidas e dar um prazo para que isso seja solucionado sem ônus para ela junto ao consumidor. Agora, tente você apresentar uma "falha" nos pagamentos de parcelas do veículo para ver se banco, concessionária e montadora te dão um prazo para que isso seja solucionado sem ônus para você junto às empresas.

O mais legal é que como a empresa termina o seu comunicado:

"Com essa atitude, a FIAT AUTOMÓVEIS S.A. demonstra o profundo respeito aos seus consumidores e o seu reiterado compromisso de comercializar e garantir produtos da mais elevada qualidade e confiabilidade."

Tá tudo errado! Ao invés de pedir profundas desculpas aos consumidores, seja pelos transtornos, seja por colocar sua segurança em risco, e prometer rever processos de planejamento e produção para que isso não volte a acontecer, a empresa faz cara de paisagem. Tenta, dessa forma, reverter o significado do ocorrido. Nunca se esqueça: é o discurso que organiza o mundo e não os fatos.

Essas convocatórias de recall me lembram um tipo de propaganda que, particularmente, eu também adoro. É aquela que explica ao consumidor que ele deve agradecer o favor que lojas, bancos e concessionárias de serviços públicos lhe fazem. Uma espécie de mensagem em que induz em nós uma vontade louca de incorporar Gilberto, personagem de uma peça de Nelson Rodrigues, com sua reação às traições da esposa: "Perdoa-me por me traíres".

Vocês perceberam que toda a vez que o setor empresarial vai tungar o nosso bolso com um aumento bizarro acima da inflação ou quer esconder algo (normalmente algum defeito de fabricação que deixaram passar) chovem anúncios nos veículos de comunicação mostrando como a vida é melhor com eles?

Essa explosão de mídia acontece para limpar a barra de montadoras que são obrigadas a fazer recall porque o seu produto decepa dedos ou veio com uma pecinha torta que pode, sei lá, deixar o freio sem função.

Indústrias mineradoras e de pesticidas que acreditam que bebês acéfalos, cânceres de pele e peixes mortos são apenas um detalhe.

Empresas envolvidas em investigações por corrupção ativa – ou a culpa é só do lado dos políticos?

Construtoras que acreditam, piamente, que seus operários sabem voar e, daí, pouco se importam com a falta de equipamentos de proteção individuais em andaimes e gruas assassinos.

Frigoríficos processados por moer a Amazônia em forma de hambúrguer e fazer nuggets dos tendões de seus trabalhadores nas linhas de produção.

Ou, ainda, concessionárias de rodovias, que mostram na TV como é legal pagar um aumento no pedágio acima da inflação.

Nesse comerciais, o céu é mais azul, os campos são mais verdes e até veadinhos saltitantes pastam entre dentes de leão espalhados pela brisa. Famílias sorridentes pipocam aqui e ali, com escovas impecáveis e dentes brancos. Não há lixo ou poluição, o sofrimento não tem vez e tudo é acessível, como se dinheiro desse em árvore.

E a gente vai engolindo tudo. Como em uma novela. Cujo final feliz é deles, não nosso.

Enfim, aqui você encontra a lista de recalls do Procon de São Paulo e, aqui, a do Ministério da Justiça. E, neste link, como comprar e recarregar o seu bilhete único para uso do transporte público, caso more em São Paulo.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.