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Precisamos de gente ponderada, que não seja de esquerda, nem de direita

Leonardo Sakamoto

06/01/2014 13h20

Olha, ninguém gosta de extremistas, viu? Ninguém vai com a cara de quem estica a corda para um dos lados. O mundo não precisa de pessoas assim, pois essas só trazem confusão, criam tumultos e fazem outras sofrerem. O que precisamos é de mais gente ponderada, que não seja nem tanto ao céu, nem tanto à terra, nem de esquerda, nem de direita, nem patrão, nem empregado, que resolva todas as questões na base da conversa.

Que siga o exemplo do Mandela que conseguiu acabar com o Apartheid através do diálogo e que… Hã… Sei… Ah, é? Mas não importa que ele foi um dos articuladores da resistência e acreditava no uso da força como recurso. O que importa é a mensagem que ficou para o mundo. E a mensagem é essa: não se faz transformação social séria sendo radical… O quê? Hum… A Revolução Francesa? Ah, mas isso é exceção! Vi o filme do Lincoln e sei que a garantia do direitos dos negros nos Estados Unidos foi feita sem uma gota de sangue derramado, só na articulação… Ah… Muita gente morreu e continua morrendo por isso? Essa é a sua opinião, não os fatos e os fatos mostram um presidente negro nos Estados Unidos. Você está se prendendo a tecnicalidades. Entenda bem: não é legítima nenhuma conquista obtida na base da pressão e da chantagem social. Greve, por exemplo. Que mérito tem um grupo de trabalhadores que cruza os braços e transforma a vida dos demais cidadãos em um inferno? O empresário está dando o máximo de si na negociação, se ele diz que não dá para dar um aumento maior é porque não dá!  Esse clima todo de desconfiança na palavra do outro é horrível, gera uma energia super negativa… O quê? melhorar a participação nos lucros? Isso aqui não é um país socialista, se o trabalhador quer ganhar mais que abra seu próprio negócio como o empresário abriu, ué! Cadê o bom senso, meu Deus? Olha só, estamos vivendo uma ditadura antropológica pior que a ditadura militar. Os índios estão saindo de florestas que abandonaram há séculos e agora querem tomar as terras de quem estava lá antes… Sim, antes!… Não dá para dizer que o fazendeiro não tem o direito de defender sua propriedade… Não… Discordo… É diferente… Proteger sua própria fazenda não é usar violência gratuitamente, o que é errado, é uso legítimo da força para manter a legalidade. Tá na lei. Eu disse que tá na lei! Só que vocês não entendem o que significa a lei, né? Não gostam de obedecê-la… Daí aparecem aqueles bandos de sem-teto cracudo  e sem-terra vagabundo invadindo prédio e fazenda dos outros e o governo cai na chantagem e entrega imóveis e terras para eles. Daí uma coisa falida como a reforma agrária acaba sendo mantida viva como um zumbi por conta dessa pressão…Falta gente ponderada que, ao invés de ficar empurrando os outros com o cotovelo, entenda o seu lugar na sociedade. E se quiser mudar de vida que lute de acordo com as regras do jogo… Não importa quem definiu as regras. Se elas estão aí, é para obedecer, senão vira caos. É função do Estado impedir o caos, impedir essas mudanças que vão trazer dor aos homens de bem…Sim, descendo o cacete em vagabundo, devolvendo esses índios indolentes de volta para as florestas, mantendo esses cracudos sem-teto longe. E também deixando claro para gays, lésbicas e travestis não podem impor seu estilo de vida espalhafatoso para cima do nosso… Não, não podem, isso não é casa da mãe Joana, tem que respeitar as regras…Regras de quem? Nossas regras! Não é uma questão só de qualidade de vida, mas também de sobrevivência. Nossa integridade como classe média, tudo o que conseguimos conquistar, estão em risco com esses vândalos.

É por isso que ninguém gosta de extremistas, viu? Ninguém vai com a cara de quem estica a corda para um dos lados. O mundo não precisa de pessoas assim, pois essas só trazem confusão, criam tumultos e fazem outras sofrerem. O que precisamos é de mais gente ponderada, que não seja nem tanto ao céu, nem tanto à terra, nem de esquerda, nem de direita, nem patrão, nem empregado, que resolva todas as questões na base da conversa.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto