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Mantenham os garis. Demitam o prefeito Eduardo Paes

Leonardo Sakamoto

2004-03-20T14:18:55

04/03/2014 18h55

Um protesto de garis bloqueou parte da avenida Vieira Souto, em Ipanema, no Rio de Janeiro, nesta terça (4) de carnaval.

Contrariando um acordo do sindicato com a empresa de limpeza pública (que concedeu 9% de reajuste mais adicional de insalubridade de 40%), parte da categoria manteve a paralisação. Defende que o piso vá de R$ 800,00 para R$ 1200,00, mais adicional e outros direitos.

Em meio a isso, a prefeitura anunciou a demissão de 300 garis que não voltaram ao trabalho. Justifica que os garis já tiveram 50% de ganho real nos últimos cinco anos. A greve foi considerada ilegal e abusiva pela Justiça do Trabalh0.

Algumas das atividades mais importantes e, ao mesmo, que mais sofrem preconceito são aquelas ligadas à limpeza pública – como varrição de ruas e coleta de lixo.

"Olha, se não estudar, vai virar gari!"

"Você quer ser alguém na vida ou quer ser gari?"

"Ai que dó daquele rapaz… Tinha tanto potencial e virou gari."

Se fossemos uma sociedade justa, profissionais responsáveis pela nossa qualidade de vida e que, ainda por cima, exercem funções insalubres, como limpar a porcaria dos outros, receberiam um salário condizente com a importância e os riscos da função.

Mas não. Pagamos relativamente pouco a eles. E os consideramos o restolho da sociedade. São o exemplo do que não deu certo. Preconceito semelhante sofrem os catadores de materiais – responsáveis pelo milagre que faz do Brasil um dos países que mais reciclam no mundo.

Enquanto isso, fazemos patéticas comemorações quando ficamos sabendo de histórias de garis que se tornaram "alguém" através de muito esforço pessoal sem a "ajuda do Estado" e, hoje, são diretores de empresas. O que, por contraposição, faz com que os demais sejam enquadrados como "indolentes" que não se dedicaram o suficiente para deixar essa estigmatizada profissão.

"Ah, não estudou…" Se eu acreditasse no inferno, mandaria a pessoa que diz essa frase para o lugar toda vez que escuto essa aberração.

Qual o objetivo disso? Afirmar que as pessoas que desempenham determinada função não estudaram? Com base em que?

Ou defender que as pessoas deveriam ser diferenciadas, a priori, pela quantidade de anos estudo em detrimento à função ou quantidade de horas que entregam à sociedade?

De mal parecido, sofrem professores do ensino público que, apesar de muito estudarem muito, ganham um salário de titica para ajudar a construir o futuro do país. Além de serem tratados como lixo, apanhando da polícia e até de pais de alunos.

Quantos anos o bacharel em direito Eduardo Paes estudou? E qual a porcentagem de suas promessas de campanha foram devidamente cumpridas? E agora me diga a porcentagem de cumprimento de planejamento de limpeza de um gari. Se ele não faz o serviço, pode ser demitido. Já no caso de prefeitos, o tempo de tolerância é de quatro anos… Estou atacando a democracia? Não, apenas conclamando ao bom senso.

O governo municipal do Rio deveria aprender a negociar melhor ao invés de usar um instrumento como a demissão para enterrar reivindicações justas. Ao mesmo tempo, parte da sociedade carioca que está postando abobrinha sobre a paralisação deveria tomar vergonha na cara. "Terrorismo" não é parar de trabalhar para reivindicar. "Terrorismo" é fazer com que o restante da população fique contra um grupo de trabalhadores, enquanto as incompetências do poder público, acumuladas por vários prefeitos, não são devidamente debatidas.

Apoio os professores. Apoio os metalúrgicos de fábricas de automóveis. Apoio os controladores de vôo. Apoio os cobradores e motoristas de ônibus. Apoio os bancários. Apoio os residentes médicos. Apoio os garis. Apoio o santo direito de se conscientizarem, reconhecerem-se nos problemas, dizer não e entrar em greve até que a sociedade pressione e os patrões escutem.

Mesmo que a manifestação deles torne minha vida um absurdo.

Porque sujeira não é o entulho que se acumula nas ruas em pleno carnaval carioca. É a falta de respeito que muitos cultivam, dia após dia, com uma das mais essenciais profissões.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.