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Usar a Copa para conquistar direitos não é chantagem. É oportunidade

Leonardo Sakamoto

23/05/2014 16h18

Tenho conversado com colegas jornalistas que reclamam da estratégia de movimentos sociais e categorias profissionais que estão aproveitando a iminência da Copa do Mundo para trazer à rua suas pautas de reivindicações. Reclamam de um suposto oportunismo, transformando o poder público em refém.

Vamos por partes. Antes de mais nada, não vejo este momento como um retorno ao que aconteceu no ano passado. Já discuti por aqui que foram tantos os elementos conspirando a favor das catárticas jornadas de junho que será muito difícil vermos novamente, no curto prazo, aqueles mares de gente. De qualquer forma, junho de 2013 subiu o handicap. A percepção sobre o que é a rua e a sua função mudou.

Dito isso, acho que "confunde-se" oportunismo com aproveitamento de oportunidade.

Os garis – que são de uma categoria profissional sistematicamente ignorada pelo poder público e que sofre preconceito de parte da população – foram perfeitos do ponto de vista estratégico, paralisando as atividades no momento em que o lixo do carnaval se acumulava nas ruas do Rio de Janeiro. Aeroviários e controladores de vôo já escolheram as festas de final de ano para cruzarem os braços diante de melhores salários e condições de trabalho.

Erram eles? De maneira alguma. Qual outro período sua existência poderia ser melhor notada do que naquele em que mais se precisa deles? Deixar o protesto para quando o impacto for menor seria demonstrar uma falta de capacidade crônica de ler a conjuntura, para dizer o mínimo.

E isso não é monopólio do Brasil. Em muitos países, antes de grandes eventos, grupos trouxeram suas pautas a público, reivindicando aumentos ou direitos. Agora que a Copa se aproxima, categorias começam a se mexer. E quanto mais chances tiverem de atrapalhar o cotidiano das cidades-sede ou a imagem que se quer vender no exterior, maior poder de reivindicação terão.

Motoristas e cobradores de ônibus, metroviários, aeroviários, policiais e outros profissionais ligados à segurança pública, trabalhadores de hotéis e de turismo em geral, empregados de empresas de telecomunicações (no que pese a intensa terceirização ter fragilizado o potencial de organização desse último grupo) são os mais óbvios. Mas outros também poderiam aproveitar o timing de grandes eventos, como operários de fábricas de cerveja ou de indústrias de televisores.

Ou um grupo que muita gente não esperava, mas que está diretamente relacionado às críticas aos gastos públicos para a Copa do Mundo e ao processo de gentrificação (grosso modo, o encarecimento e a segregação da vida na cidade): movimentos de trabalhadores sem-teto.

Estes acertaram o timing em cheio. Invisíveis em boa parte do ano, escolheram o momento em que podem ser um estorvo à imagem que o país quer vender lá fora. Ou à ordem que espera-se aqui dentro. Afinal de contas, se país rico é um país sem pobreza, o que esse bando de gente sem casa e que não tem nada a perder faz fechando as ruas?

A educação é um ponto interessante. Se por um lado, gostamos de afirmar que ela deve ser nossa prioridade número um, não é sentida e exercida como tal. Pelo contrário, esvaziamos tudo o que poderia levar à construção de uma educação realmente transformadora, apoiando iniciativas de pensamento dentro da caixinha. Além do mais, paralisações de professores têm impacto limitado, talvez pelo fato da situação ser tão ruim que elas ocorrem com uma frequência necessária, mas que tira o "efeito novidade" presente nas marchas de sem-teto.

É claro que uma greve detona a vida do cidadão que mais precisa de serviços públicos. Só quem é muito tosco ou nasceu em berço de ouro acha o contrário. Mas essa é exatamente a força de uma paralisação: forçar o poder público a se mexer. Greve não é linda e maravilhosa. Greve é uma droga, mas necessária, o que são coisas bem diferentes.

Nesse sentido, a greve mais impossível, mas também uma das mais imprevisíveis, seria uma geral de jornalistas durante a Copa. Impossível, porque jornalista não se vê como trabalhador. Ou, pior: acredita que sua "missão" é mais importante do que sua qualidade de vida (ei, falo por conhecimento e idiotice próprios) – missão essa relacionada, não raro, à dispensáveis informações que, não raro, veiculamos.

A maior parte dos jornalistas não só não faria nada que colocasse em risco seu papel de "ponte social" durante um grande evento e o seu emprego, como também critica sistematicamente as categorias profissionais que se valem de "oportunismos" para lucrar.

Por isso, como já disse aqui antes, quando crescer quero ser mobilizado e consciente como gari. Que são mais livres do que colegas que fazem beicinho diante de grevistas marchando para algum lugar.

Afinal, chantagem não é necessariamente o que grevistas fazem com a sociedade. É o que nós, jornalistas, muitas vezes fazemos com eles, através de discursos que não parecem análises ou relatos, mas sim releases de governos e empresas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.