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Criticou X, tem que fazer Y. A lógica binária do brasileiro volta a atacar

Leonardo Sakamoto

2002-08-20T14:13:11

02/08/2014 13h11

Frente a alguns acontecimentos da última semana, atualizo este post e o republico para ver se, através da repetição, da repetição e da repetição, o pessoal se toca o quanto certos comportamentos podem ser ridículos.

"Ah, mas você também faz o que critica seu esquerdista foie gras, hipócrita que come em restaurante caro, comunista comedor de criancinhas, abusador da moral e dos bons costumes, vendilhão, mimimi, mimimi, mi!" (Hehehe. O pessoal é criativo.)

Como eu já disse, falta amor no mundo. Mas também falta interpretação de texto.

***

Criticou uma política de Israel? É antissemita ou pró-Hamas.

Criticou uma ação do Hamas? É pró-Israel ou islamofóbico.

Reclamou da falta de água em São Paulo? Vai votar no Padilha.

Analisou negativamente obras para a Copa? Não gosta de futebol.

Foi à rua protestar? Quer derrubar o governo.

LAERTE-13-12

Elogiou uma ação do governo federal? Petralha.

Comentou que uma política de São Paulo era boa? Tucanalha.

Criticou a ação de um candidato do PSDB? Petralha.

Avaliou mal a ação de um candidato do PT? Tucanalha.

É de esquerda? Tem que fazer voto de pobreza.

É de direita? Chicoteia os empregados.

Defendeu sem-teto? Se não levar para casa, é hipócrita.

Torceu o nariz para o machismo? É bicha.

Fumou maconha? Amanhã, vai fumar crack.

Não tem Deus no coração? É do mal.

Criticou a violência policial? Quer policiais mortos.

Foi contra linchamento? É a favor de bandido.

Dançou animada na balada? Tá pedindo homem.

Vestiu saia curta na rua? Tá pedindo homem.

Sozinha no Carnaval? Tá pedindo homem.

Reclamou da concentração de verba pública para uma emissora de TV? Não pode ver novela.

É índio? Tem que andar nu e não ter carro.

Fez greve em ano de eleição? É da oposição ou inocente útil.

Não é homem? Então, tem que ser mulher.

Não está conosco? Então, está contra nós.

Não é patriota? Pois é um inimigo da nação.

Não o ama? Então, deixe-o.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.