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Eleições: Você acha que é cool e hype ser blasé diante da política?

Leonardo Sakamoto

01/09/2014 14h05

Serei obrigado a discordar de Francisco Everardo Oliveira Silva, vulgo Tiririca. Pois pior do que está, pode ficar sim.

Aliás, tenho gases quando ouço esse discursinho de que um município, um estado ou o país estão no fundo do poço e nada pode piorar.

Gente, não falem isso. Nem por brincadeira. Olha, já vi desgraça suficiente, dentro e fora do Brasil por conta desse trabalho de contador de histórias, que posso atestar, sem sombra de dúvidas, que não há fundo do poço porque o poço não tem fundo.

E que vivemos em uma sociedade que funciona relativamente, com relativo (força no "relativo", por favor) respeito aos direitos fundamentais. Se não acredita, vá a Serra Leoa, ao Haiti ou à Somália.

"Ah, você tá defendendo o Lula e a Dilma!" Não. "Ah, você tá defendendo o FHC e o Aécio!" Não. "Ah, você tá defendendo a Marina!" Não. Eu estou defendendo o mínimo entendimento de história, esse campo do conhecimento tão esquecido.

Muitos desconhecem o valor das lutas que nos trouxeram até aqui. E, o pior, é que fomos nós mesmos que não fizemos questão de não deixar isso claro.

Pessoas que não precisam ser mitificadas ao contrário do que acontece (heróis fedem), mas a luta travada não pode ser desprezada. Pois, se daqui em diante, novos caminhos podem ser trilhados é porque pessoas abriram uma estrada. Ou seja, o mundo não nasceu conosco e nem vai deixar de existir quando a gente for embora.

Até porque "o povo não acordou" em junho do ano passado. Quem acordou foi uma parte dele. Outra parte nunca dormiu, afinal não tinha cama para tanto. No campo, marchas ainda reúnem milhares de pobres entre os mais pobres, que pedem terra plantar e seus territórios ancestrais de volta – grupos que são vítimas de massacres e chacinas desde sempre. Ao mesmo tempo, feministas, negros, gays, lésbicas, sem-teto sempre denunciaram a violação de seus direitos.

Eu gosto de cinismo. Bem dosado, cria uma casca que nos protege da insana realidade.

Mas sabe o que acontece quando você exagera e diz que não importa nada do que façamos, tudo vai continuar igual? As coisas continuam iguais.

Você acha cool se fazer de blasé diante da realidade? Acha ridículo esse povo que tenta debater (os que fazem de forma civilizada, não os dodóis da cabeça) os rumos do país? Tem nojinho de debate público? Crê que nada disso é útil e que melhor seria se cada um tocasse sua vida?

Tsc, tsc, tsc…

Não se engane: de tanto falar "Nada Adianta", você tem tanta responsabilidade por fazer cumprir essa profecia quanto os representantes dos poderes econômico e político que fazem de tudo para que "Nada Adiante" mesmo.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto