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Leonardo Sakamoto

Usina de família de novo ministro foi flagrada cinco vezes com escravos

Leonardo Sakamoto

01/12/2014 19h17

O senador Armando Monteiro Neto (PTB-PE), anunciado como novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, afirmou que o maior desafio é aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado mundial.

Desejo que o caminho que o governo Dilma encontre para fazer isso não passe pela depreciação da qualidade de vida no país.

Porque a história mostra que toda vez que alguém fala em ampliar a competitividade em um mercado globalizado tende a optar pela saída fácil de reduzir os direitos trabalhistas e sociais.

De tentativas de impor restrições à fiscalização do trabalho à busca pela aprovação de leis que ampliem a terceirização da mão de obra e mandem INSS, FGTS, férias e 13o para o espaço.

Para isso, espero que o ministro não tome como referência o histórico de uma empresa da própria família.

O governo federal flagrou trabalhadores em condições análogas às de escravo em, ao menos, cinco oportunidades na Destilaria Araguaia (antiga Destilaria Gameleira), em Confresa (MT). De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2009, foram 55 resgatados; em 2005, outros 1.003; em 2003, mais 272; em 2001, 76; e, em 1997, 45 pessoas. O maior dos resgates aconteceu quando a empresa estava sob a gestão de Eduardo Queiroz Monteiro, irmão de Armando – que não aparece, hoje, entre seus proprietários.

O caso ficou conhecido por episódios nonsenses que dizem muito sobre a política brasileira. No dia 1º de junho de 2005, o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PR-PE), telefonou para o Sindicato Nacional das Distribuidoras de Combustíveis e empresas distribuidoras de combustível "questionando" o motivo pelo qual grandes distribuidoras haviam cancelado contratos de compra da Destilaria Gameleira – então inserida na "lista suja" do trabalho escravo, cadastro do governo federal com os empregadores flagrados com esse crime. Apesar do lobby, as distribuidoras mantiveram o boicote à empresa enquanto ela ficou na lista.

A empresa voltou a figurar na "lista suja" do trabalho escravo, em 2013, sob novo nome – "Zihuatanejo do Brasil Açúcar e Álcool – Destilaria Araguaia". De acordo com o Conselho Monetário Nacional, está proibida de receber financiamento agrícola.

Torço para que o ministro faça uma boa gestão da imagem dos produtos brasileiros no exterior e incentive o crescimento do comércio interno. O que, certamente, inclui evitar a promoção de corporações flagradas com escravos e seus sócios.

E levando em conta que ele já foi conselheiro da empresa, torço para que seus conselhos para o desenvolvimento do país sejam, de fato, sustentáveis.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.