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Leonardo Sakamoto

A desigualdade social no Brasil é uma tragédia ou uma comédia?

Leonardo Sakamoto

19/01/2015 12h54

Prólogo: Relatório divulgado pela Oxfam mostra que, a partir do ano que vem, os recursos acumulados pelo 1% mais rico do mundo podem ultrapassar a riqueza do 99% restante da população. A riqueza desse 1% subiu de 44% dos recursos mundiais (2009) para 48% (2014) e, em 2016, deve ultrapassar 50%.

[Um facho de luz incide do teto ao chão, iluminando a haste de um microfone, localizado à frente de um palco vazio. Uma mulher jovem entra no palco, vai até o microfone e se dirige à plateia.]

Moça: A taxação de grandes fortunas, a taxação de grandes heranças e a redução do teto da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salário beneficiariam a população brasileira.

[Um homem jovem entra ao lado dela e também se dirige à plateia.]

Moço: A Organização Internacional do Trabalho mostra que a redução do teto da jornada para 40 horas semanais beneficiaria um contingente de 18,7 milhões de trabalhadores por aqui.

[No fundo do palco, à esquerda, um holofote ilumina um coro vestido de Equipe Econômica do Governo Federal e Certos Empresários, que começa a cantar]

Equipe Econômica do Governo Federal e Certos Empresários: "Radicalismo! Radicalismo! Radicalismo! Esse povo quer destruir os fundamentos da democracia brasileira com seus anseios de ficar mais com a família, descansar, investir em formação pessoal! Vão trabalhar, seus vagabundos! Só o trabalho liberta! Radicalismo! Radicalismo! Radicalismo!"

[O coro se apaga.]

Moça: Há estudos que apontam que o PIB brasileiro comportaria um aumento até maior do salário mínimo, desde que houvesse uma real distribuição de renda, de direitos e de justiça. Alguns poucos perderiam para muitos ganharem. A desigualdade caiu nos últimos anos, mas o caminho para uma situação digna é ainda longo demais.

Moço: Da cobrança de impostos maiores sobre grandes fortunas até a taxação de heranças seguindo o modelo norte-americano ou europeu, passando pelo aumento no imposto de renda de quem ganha bastante e redução de quem ganha pouco. Se alguns pagarem mais imposto, a maioria pode pagar menos, considerando que, hoje, proporcionalmente, os muito ricos não pagam tanto imposto quanto os mais pobres.

[No fundo do palco, à direita, um holofote ilumina um coro vestido de "Homens e Mulheres de Bem", que começa a cantar.]

Homens e Mulheres de Bem: "Radicalismo! Radicalismo! Radicalismo! Cobrar dos que têm mais para desonerar os que têm menos? Isso só é bonito nos filmes de Robin Hood! Na vida real, é comunismo! Qual o próximo passo? Tomar nossa casa e vender nossos filhos como escravos? Que culpa eu tenho de ser rico? Radicalismo! Radicalismo! Radicalismo!"

[O coro se apaga,]

Moça: O então senador Fernando Henrique Cardoso, antes de pedir que esquecessem o que ele escreveu, defendeu a taxação de grandes fortunas no Congresso Nacional.

Moço: Luiz Inácio Lula da Silva, antes de chamar os usineiros de cana de "heróis", também defendia a redução na jornada de trabalho.

Moça e Moço: O poder muda as pessoas, é fato. O pior é ter que ouvir dos próprios que eles não mudaram, apenas ganharam uma consciência ampliada a partir do cargo em que ocuparam.

[Os holofotes iluminam os dois à frente e os coros atrás.]

Todos: Pior é que talvez isso seja, de fato, verdade. Pois nenhum dos dois principais partidos políticos hoje no país age para, ao menos tentar, aprovar algumas propostas consideradas "polêmicas" que já defenderam no passado. Atestam assim, com seu silêncio ensurdecedor, que medidas contundentes para distribuição de riqueza, visando à redução da desigualdade e já aplicadas em outras partes do mundo, são boas demais para serem levadas a sério por aqui.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.