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Por que liberar armas aos "cidadãos de bem"? Para matar índio

Leonardo Sakamoto

28/10/2015 08h56

Nutro uma certa inveja por pessoas que demonstram um pensamento binomial. Para eles, a vida é tão simples! É A ou Z – e só. Não existe outra coisa entre um polo e outro, nenhuma área cinzenta, nenhuma dúvida, nada.

Enfim, o mundo não é complexo. As "pessoas do mal" é que tentam turvar aquilo que é certo, confundindo os "homens e mulheres de bem".

Daí, para a vida fazer sentido, dizem que todos têm que abraçar uma ideia e simplificar o mundo ao máximo. Se não não é possível fazer isso, sem problema, eles te dão uma mãozinha, rotulando você.

Se você não é hétero é homo.

Se você é da classe média e tem um smartphone, não pode defender políticas para os mais pobres.

Se critica campanhas de terra arrasada contra as drogas, é um usuário de crack que rouba a mãe pelo vício.

Se é contra mudar o Estatuto do Desarmamento, deseja que bandidos esfolem sua família sem possibilidade de defesa.

Vamos nos deter nesse último ponto, considerando que uma comissão especial aprovou, nesta terça (27), a revogação de parte dessa lei, facilitando o porte de armas. O que, claro, é uma bizarrice sem tamanho.

Já contei aqui que uma parcela binária dos meus leitores reclama de uma foto minha, segurando um fuzil, tirada com o exército de libertação de Timor Leste durante uma reportagem em 1998 – foto que eu, orgulhosamente, publiquei em páginas nas redes sociais.

Perguntam como alguém "de bem" pode ser a favor do desarmamento civil e a favor de um exército de libertação?

(Ai, gente. Que preguiça…)

Os que faltaram às aulas de história para ir jogar bola e videogame ou passear no shopping talvez tenham dificuldade de responder a essa pergunta. Então, vamos contextualizar.

Um povo passa um quarto de século lutando contra um exército invasor, que matou mais de 30% de sua população, estuprou milhares de mulheres através de uma política de limpeza étnica, roubou terras e recursos naturais e condenou outros tantos à inanição. E, praticamente sem ajuda de ninguém, vence, tornando-se um país livre. Ao sair, esse invasor e seus parceiros ainda promovem um último banho de sangue. O mundo saúda a conquista da autodeterminação e a história desse povo torna-se um exemplo.

Menos esse pessoal binário que acha que "resistência contra genocídio é bandidagem", não conseguindo diferenciar uma coisa de outra através da reflexão.

Porque, por mais que sejam absurdas as estatísticas de mortes no Brasil, é um ultraje chama-las de genocídio, comparando ao que Alemanha nazista fez com judeus, os roma e homossexuais, ao que o Khmer Vermelho causou no Camboja, o que a Turquia fez contra os armênios, os hutu sobre tutsis em Ruanda…

Muitos desses colocariam membros da Resistência Francesa na Segunda Guerra no pau-de-arara. Aliás, tenho certeza que se, hipoteticamente, o Brasil fosse invadido por um exército estrangeiro, esse pessoal binário seria o primeiro a se oferecer como colaboracionista.

Certamente, em troca, pediriam que fosse garantida a ordem para que houvesse progresso.

Também não duvido que apontariam as mulheres que "mereceriam" um corretivo por não se portarem ou se vestirem como se espera delas.

A sugerir que minorias que reivindicassem direitos fossem caladas pelo risco que representam aos "homens de bem".

A exigir que a "religião oficial" fosse respeitada em detrimento a "cultos demoníacos."

E que, uma vez que uma cena como a da queima de livros de Fahrenheit 451 pareceria demodê, que os bancos de dados de sites que propagam ideias que respeitassem os direitos humanos fossem terminantemente apagados e seus autores presos.

Já disse aqui uma vez. Ser pacifista não significa morrer em silêncio, em paz, de fome ou baioneta. A desobediência civil professada por Gandhi é uma saída, mas não a única e nem cabe em todas as situações.

Há pessoas que reclamam da "violência" de ocupações de imóveis vazios, entregues à especulação, feitas por uma legião de gente pobre. Essas mesmas pessoas consideram foices e enxadas na mão de sem-terras ou arcos e flexas com indígenas armas de destruição em massa, mas defendem o livre porte de armas de fogo.

Resistência não é baderna, desordem e violência gratuita. Mas o oposto: uma luta pelo reestabelecimento do respeito aos direitos humanos. E, principalmente, significa que os pequenos podem, sim, vencer os grandes. E os fracos, rotos e rasgados são capazes de sobrepujar fortes, ricos e poderosos.

Por isso, o desespero inconsciente dos leitores binários. Afinal, são eles, consciente ou inconscientemente, os "soldados" da manutenção do status quo. Acham importante andar armados ao invés de reforçar a capacidade do Estado de garantir paz. Não apenas pela repressão, mas também por garantir direitos.

Pois estão em guerra. Guerra contra seu próprio povo.

Não é de estranhar, portanto, a declaração de guerra de deputados federais, também nesta terça (27), contra a resistência de povos indígenas e quilombolas por sua própria sobrevivência.

A proposta de emenda constitucional 215/2000, que dá ao Congresso Nacional poder na demarcação de territórios de populações tradicionais, foi aprovada em uma comissão especial e vai a plenário. Considerando que o Congresso é ruralista, se a PEC for aprovada, a vida de muitos desses povos, que já morre de fome na beira de estradas ou de bala por fazendeiros que querem eles longe das terras que tradicionalmente os pertence, será ainda pior.

As bancadas do boi, da bala e da bíblia fazem o que querem, diante de um governo fraco e, não raro, conivente, uma oposição cega e também conivente e um Eduardo Cunha ágil em retribuir o apoio por sua eleição para presidente da casa e a criar cortinas de fumaça para seus escândalos.

Considerando que seguimos na inércia de séculos de história. Matar índio, física e simbolicamente, é mais do que necessário. É uma missão divina, um dever civilizatório. Os que resistem, morrem.

Ou, resumindo, para os leitores binomiais: caindo o Estatuto do Desarmamento e aprovando a PEC 215, vai morrer mais índio no Brasil. De um jeito ou de outro.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto