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Leonardo Sakamoto

Acredite: Se Deus existir, ela não se preocupa com o seu orgasmo

Leonardo Sakamoto

26/11/2015 20h44

– É homem ou mulher?

A pergunta veio rápida (e um tanto quanto constrangida) de um conhecido, que me apontou para uma mulher muito atraente – pelo menos para os meus padrões – em uma festa.

– Mulher, ué.
– Mas você não acha que é transexual?
– E, se for, continua sendo mulher.
– Ah, mas aí é problema, né?
– Problema? Por parte dela, nenhum. Talvez o problema é ela descobrir a verdade, que você não é nada interessante rs.
– Tá louco! O que as pessoas iriam pensar de mim?

Perguntinha fascinante. "O que as pessoas iriam pensar de mim?" Ela me lembrou de um debate que travei aqui e atiçou a ira dos misóginos de plantão (que, a propósito, duvido que saibam o que significa misógino). Debate que me trouxe muita crítica – e, por isso, vale a pena ser resgatado.

Por partes: você se sentiu sexualmente atraído por uma mulher. E depois de uma boa conversa, ela deixa claro que idem. Daí descobre que ela tem ou teve o mesmo órgão sexual que você. De repente, o que era desejo se torna uma culpa escabrosa e violenta, somada a uma raiva idiota da outra pessoa. Que, diga-se de passagem, não deveria sofrer nenhum tipo de escárnio público ou humilhação pelo fato de você ser ridículo.

Medo de que, parceiro? De ser chamado de "bicha" na mesa de bar, de sofrer bullying virtual de um grupo de amigos (sic) com cérebro menor do que uma noz moscada, de receber olhares condenatórios depois do jogo de futebol de domingo, de ser excluído de uma droga de patota preconceituosa?

Se você aceita bovinamente viver com medo de seus desejos conseguirá, aí sim, ser um belo de um covarde que não tem vontade ou opinião própria, mas depende da manada para lhe dizer o que pensar, como se vestir, o que comer e com quem se deitar.

Cara, tenho dó de você. Porque, ao temer ser rotulado, compartimenta a vida em caixinhas que, simplesmente, não existem. E interdita a si mesmo em uma sabotagem maluca.

E, olha, se existir uma Entidade Suprema, acredite, ela não vai se importar com quem você transa ou quem você beija. Caso contrário, não seria uma Entidade Suprema, mas algum religioso-fundamentalista-inspirador-de-ódio.

Por fim, o que faz uma mulher e um homem não é o que ela ou ele teve ou tem entre as pernas, mas como ela ou ele se vê e se afirma. Os pacotes "homem" e "mulher" são construções sociais e individuais, afinal de contas. Ninguém nasce "homem" ou "mulher". Torna-se.

Não pretendo que todos concordem com isso logo de primeira. Mas #ficaadica.

O problema, na verdade, é que a gente vive em um grande jardim da infância, insistindo em não crescer. Pois, talvez um dia, as pessoas percebam que o que importa não é como você respeita a opinião dos outros sobre o seu próprio desejo. Mas como você respeita o seu próprio desejo.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.