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Cinco maneiras de te convencer que a desigualdade social é legal pacas

Leonardo Sakamoto

29/12/2015 13h40

O ultrajante não é alguém morar em um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro vive em um de 40.

O que desconcerta é uma sociedade que acha normal um ter condições para desfrutar de um apê de 4 mil metros quadrados enquanto o outro apanha da polícia para manter seu barraco em uma ocupação de terreno, seja em Itaquera, Grajaú, Osasco, Pinheirinho, Eldorados dos Carajás, onde for.

Abaixo, cinco formas através das quais tentam te convencer que a desigualdade social e concentração de riqueza são legais pacas:

1) O povo brasileiro não é o mais alegre do planeta – mas é um dos campeões de desigualdade social e de concentração de renda. O Brasil não é o país que tem a mulher mais bonita – mas tratamos mulheres como cidadãs de segunda classe. Nossa comida não foi eleita a mais gostosa – mas estamos entre os campeões globais de uso de agrotóxicos. Não somos a maior democracia racial do universo – o que existe são séculos de escravismo e suas heranças. Adoramos inventar rankings impossíveis para esconder verdades.

2) Valores ensinados cuidadosamente ao longo do tempo nos transformam em guerreiros da causa alheia. Não ganhamos nada com isso, mas preferimos defender que uma propriedade privada seja usada para cultivar vento ou criar ratos e baratas do que transformá-la em assentamento ou conjunto habitacional. Tudo em nome de uma concepção equivocada de Justiça. "Por que essas pessoas que não aceitam a vida como ela é se acham melhores do que eu?", já ouvi um rosário de vezes. Não é uma questão de melhor ou pior. E sim de aceitar bovinamente um destino horrível em uma sociedade que, apenas teoricamente, não é de castas. Ou lutar para sair dessa condição.

3) Você comprou uma TV LED de 60 polegadas e, por isso, consegue se enxergar como cidadão pela primeira vez, pois compartilha de um dos símbolos da nossa sociedade. Mas está endividado por ter que pagar o plano de saúde mequetrefe que te deixa na mão e, ao mesmo tempo, com a corda no pescoço pela dívida contraída com a sua faculdade caça-níqueis de qualidade duvidosa. Agora, me diga: quem é cidadão de fato? Os que podem comprar eletrônicos no crediário ou os quem têm ao seu dispor serviços de educação, saúde, segurança, cultura, transporte de qualidade?

4) É justo que todos que suaram a camisa e conseguiram guardar algum queiram deixar uma vida mais confortável para os seus filhos. Mas, a partir de uma determinada quantidade de riqueza (muita, muita riqueza), o que seria apenas garantir conforto transforma-se em transmissão hereditária da desigualdade social e de suas consequências. Europa, Estados Unidos, entre outros países, resolvem isso através de um imposto grande sobre herança que irriga os cofres públicos ou força a doação via fundações privadas. Mas aqui a gente não precisa dessas coisas.

5) Adoro políticos com sensos de humor: "A população tem que entender que o crescimento do PIB vai beneficiar a todos, mas não agora". Os economistas da ditadura falavam a mesma coisa: "é preciso primeiro fazer o bolo crescer, para depois distribui-lo". Ou seja, você ajudou a produzir o doce, mas tire a mão dele que não é hora de você consumi-lo. Hoje, são apenas alguns que vão comer, vai chegar a sua vez. Enquanto isso, chupa que a cana é doce.

Sempre quis publicar este aqui não nunca tive oportunidade antes.

Sempre quis publicar isto aqui, mas não nunca tive uma oportunidade antes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.