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Quando jornalistas apanham na rua, algo está muito errado com um país

Leonardo Sakamoto

2007-09-20T16:17:21

07/09/2016 17h21

Dois jornalistas do UOL foram agredidos por manifestantes contrários ao governo Michel Temer enquanto entrevistavam um grupo que defendia uma intervenção militar no Brasil. Uma pessoa tentou impedir a entrevista e, após sofrerem empurrões, levarem chutes e serem atingidos por garrafas com água, Leandro Prazeres e Kleyton Amorim ficaram com hematomas.

Apesar dela ser essencial para a democracia, a própria sociedade não entende bem o papel que a imprensa desempenha. Muitas vezes nem nós, jornalistas, entendemos bem o que ela significa. Ou o papel que desempenhamos. Ou as ordens que recebemos. Ou a opinião do veículo em que estamos em contraste com as reportagens que produzimos. Ou a função social de nosso trabalho. Ou o porquê de nosso trabalho, às vezes, não ter função social alguma.

A imprensa, como qualquer outro ator social, pode e deve ser criticada, mas isso não deve descambar nunca para ataques e violência. Jogar pedras contra o prédio de uma redação ou atacar repórteres é estúpido e não aceitável sob nenhuma hipótese e esses atos deveriam ser repudiados da mesma forma que nos indignamos contra a violência a manifestantes.

A personificação em uma pessoa do descontentamento contra uma cobertura, uma opinião editorial ou a situação da economia e da política como um todo é uma idiotice sem tamanho e inadmissível.

Parte da sociedade não entende um ataque a um jornalista como um ataque à liberdade de expressão, um pilar da democracia. Vê isso como uma manifestação do descontentamento ao estado das coisas. Incendiada por conteúdos superficiais distribuídos principalmente pelas redes sociais e não acostumada ao debate público de ideias, à aceitação da diferença de opinião e à empatia pelo outro, parte para a ignorância. Cede aos discursos fáceis e toscos.

Então, não são apenas os agressores diretos de jornalistas que deveriam ser responsabilizados nesse processo, mas também quem insufla violência contra profissionais de imprensa – seja ela tradicional ou independente, um equipe de TV ou uma blogueira solitária.

Da mesma forma que algumas lideranças religiosas podem, através de discursos de intolerância, armar pessoas comuns para agir contra inocentes em casos de homofobia, machismo, entre outros, o mesmo pode ocorrer contra jornalistas – reservadas as devidas proporções. Cansei de dizer por aqui que não é na porrada louca que a comunicação será democratizada no país.

Ao mesmo tempo, vale sempre lembrar que a maior parte das instituições do Estado brasileiro não dá a mínima se um jornalista é ferido ou morto. Pelo contrário, levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) mostra que a maior parte dos casos de violência em manifestações foram levados a cabo por policiais, que sabiam muito bem o que estavam fazendo, pois o profissional de imprensa estava devidamente identificado como tal. Atuaram dessa forma para censurar o jornalista e impedir a livre circulação de informações.

Punir os responsáveis é fundamental. Mas o ataque à impunidade sozinho não vai resolver a questão de como a imprensa é vista ou tratada, pela sociedade ou pelo Estado. Para isso, precisamos ampliar o debate público sobre a importância do jornalismo.

As mudanças tecnológicas que tiraram do jornalista convencional o monopólio da mediação da circulação de notícias e criaram estruturas de difusão que não dependem da imprensa tradicional ou alternativa (como são as redes sociais), se – por um lado – abriram oportunidades únicas para a democratização da comunicação, por outro, também criaram enormes desafios.

Gostando ou não deles, veículos de comunicação tradicionais ou alternativos, independentemente de sua linha editorial, seu tamanho e posição ideológica, estão no espectro visível e operam à luz do dia. Podem ser responsabilizados judicialmente por algo errôneo, calunioso ou difamatório que divulgaram.

Contudo, a pulverização de veículos e páginas apócrifos e anônimos (que se escondem e nãodão acara para bater), pertencentes a grupos que não se importam em ter sua reputação questionada, tem contribuído para a formação incompleta ou deturpada de uma quantidade significativa de pessoas. Acredito que parte da sociedade que se informa apenas por contas de redes sociais vinculadas a alguns desses sites passou a interpretar o mundo de uma forma, não raro, mais polarizada e agressiva que aquela que consulta veículos tradicionais ou alternativos.

As pessoas consomem informação sem fazer diferenciação entre o que é confiável e o que não é. Porque muitas não querem ser informadas sobre fatos (o que significaria um processo, não raro, doloroso de educação), mas sim obter argumentos para sustentar seus pontos de vista ou seus preconceitos. Seja à esquerda ou à direita.

A solução passa pela formação de leitores para que possam separar o joio do trigo. Para que possam se questionar, a todo o momento, se a informação que receberam faz sentido ou se apenas uma fonte é suficiente para formar sua opinião. Ou se a fonte que está lhe informando algo tem ou não credibilidade além da credibilidade que a quantidade de likes, retuitadas e compartilhamentos fantasiosamente conferem a algo.

O problema é que não há sinal de que isso será incorporado aos currículos escolares. Muito menos debatido com propriedade nas instituições responsáveis por levar adiante o pensamento hegemônico – escola, igreja, família e mídia.

Creio que a pergunta que fica é: queremos realmente uma democracia ou só a usamos formalmente para encobrir nossa incapacidade de fugir de nossa natureza de ódio e intolerância?

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.