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Leonardo Sakamoto

Se até ministro tenta levar vantagem, por que devemos seguir as regras?

Leonardo Sakamoto

22/11/2016 13h18

Qual é a motivação de um cidadão comum, que rala o dia inteiro e não tenta levar vantagem sobre o vizinho, quando lê que um ministro tentou usar seu cargo para liberar a construção do prédio onde ele terá um apartamento de luxo? Ministro que, acusado publicamente, ainda acha tudo a coisa mais normal do mundo, reclamando:

"Deixar cargo por isso? Pelo amor de Deus!"

Em outros lugares do mundo, Geddel Vieira Lima teria caído em desgraça com a Presidência imediatamente. Por aqui, onde o governo atua à luz do dia para rever direitos da população, planejando a retirada de proteções trabalhistas, uma profunda reforma previdenciária e a redução no investimento de serviços públicos essenciais sem a devida discussão, ele é capaz de ganhar uma estrelinha de Temer. Afinal, tem sido o homem certo na hora certa para essas tarefas junto ao Congresso Nacional.

Nas últimas linhas da carta que relata o início da invasão portuguesa a Pindorama, hoje Brasil, a dom Manuel, rei de Portugal, Pero Vaz de Caminha se aproveita do cargo e da oportunidade para pedir um favorzitcho:

"E pois que, senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer cousa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida. A ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d'ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz."

Se a graça de levar o genro foi ou não concedida, não faço ideia e nem quero saber. Afinal, Inês é morta, ou melhor, Pero Vaz. Mas Geddel é vivo. Muito vivo.

E o que mais assusta é que ele recebe o aplauso silencioso de muita gente que não vê problemas éticos em usar uma função pública em nome de vantagem pessoal e deseja ser igual a ele quando crescer. Gente que faria o mesmo se tivesse oportunidade.

Isso leva a uma outra questão: a quem pertence o Estado brasileiro e a quem ele serve?

Por que "manifestantes" são aqueles que fecham avenidas para lutar por algo com o qual os que controlam o Estado concordam e "baderneiros" são aqueles que fazem o mesmo por algo sobre o eles discordam?

Por que empresas que grilam terras públicas são "ocupantes irregulares" e grupos de sem-terra que permanecem em fazendas griladas e pedem sua destinação à reforma agrária são "invasores" para alguns políticos?

Da mesma forma, por que proprietários de imóveis mantidos vazios para a especulação imobiliária que devem o seu preço em IPTU atrasado são "devedores do poder público", enquanto os sem-teto que ocupam esses imóveis pedindo sua destinação à moradia popular são "invasores" na boca de muitos administradores públicos?

Por que rico que deixa de pagar milhões em impostos não é "ladrão" mas está apenas exercendo seu protesto contra a pesada carga tributária? E "Ladrão" é pobre que rouba xampu?

Se esse episódio de Geddel – que envolve não apenas o fato em si, mas o cinismo de não provocar ao menos constrangimento nele – passar incólume, não vejo como o Estado terá moralidade de pedir que funcionários públicos dos Três Poderes não tentem se aproveitar do cargo para levar vantagem.

Pelo contrário, agir corretamente será visto com maus olhos pelos chefes picaretas, que perguntarão: "O que é você? Um mané?"

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.