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E se Aécio fosse pego com Pinho Sol em uma manifestação?

Leonardo Sakamoto

30/06/2017 16h23

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, autorizou que Aécio Neves (PSDB-MG) volte a exercer suas funções como senador. Ele estava afastado por decisão do ministro Edson Fachin, desde 18 de maio, e foi denunciado pela Procuradoria Geral da República por corrupção e obstrução de Justiça. O ministro também negou o pedido de prisão feito solicitado pela PGR.

Em sua decisão, Marco Aurélio poderia ter ficado apenas na explicação de que a lei autoriza a prisão de um parlamentar em poucas situações, como no flagrante de um crime (o que não foi o caso), e que cabe ao Congresso Nacional e não ao STF afastar um senador de suas funções. No que pese, claro, o entendimento da instituição ter sido outro, quando outro era o réu.

Mas ele fez questão de explicar quem é Aécio:

"É brasileiro nato, chefe de família, com carreira política elogiável – deputado federal por quatro vezes, ex-presidente da Câmara dos Deputados, governador de Minas Gerais em dois mandatos consecutivos, o segundo colocado nas eleições à Presidência da República de 2014 – ditas fraudadas –, com 34.897.211 votos em primeiro turno e 51.041.155 no segundo, e hoje continua sendo, em que pese a liminar implementada, senador da República, encontrando-se licenciado da presidência de um dos maiores partidos, o Partido da Social Democracia Brasileira."

Embora filtrada pela bondade do nobre ministro para que não aparecesse nada desabonador, escrito dessa forma, Aécio tem uma biografia invejável. E, pelo visto, a Justiça é cega, mas gosta de biografias invejáveis.

Rafael Braga também tem uma biografia. Que, do ponto de vista da Justiça, não é invejável como a de Aécio.

Jovem, negro e pobre, catador de materiais recicláveis, foi preso em junho de 2013 por portar água sanitária e Pinho Sol e, por conta disso, o único condenado nas manifestações daquele mês. Cumpriu parte da pena, passou a regime aberto e acabou preso novamente por carregar uma pequena quantidade de drogas (0,6 grama de maconha e 9,3 gramas de cocaína), segundo relato de um policial – o que Rafael nega. Mas não importa. Ele segue preso por algo ridículo.

"Sempre acreditei na Justiça do meu país", disse Aécio Neves sobre a decisão.

Faz sentido. Ele não nasceu com a biografia errada no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.