Blog do Sakamoto

Eleições 2018: Com Lula no páreo, renovação da esquerda é adiada

Leonardo Sakamoto

Lula faz pronunciamento sobre a condenação no caso tríplex. Foto: Miguel Schincariol/AFP

A indefinição sobre a presença de Lula nas eleições presidenciais do ano que vem – que depende da inegibilidade que seria trazida por uma condenação em segunda instância na Justiça e pela negação de liminares em tribunais superiores – mantém em compasso de espera a esquerda não-petista e mesmo as correntes petistas insatisfeitas e que desejam alternativas a ele.

Ninguém acredita em uma candidatura viável à esquerda tendo Lula como adversário. Mas são poucos no campo próximo a ele que teriam coragem de vir a público, neste momento, para propor nomes a fim de tentar conquistar, ao menos, o patamar de votos que, historicamente, é dado ao petista. E que, de acordo com as pesquisas de opinião, não parece ter se dissolvido.

Pois a construção de uma alternativa agora tende a ser vista por muitos como uma espécie de ataque direto ao ex-presidente, considerando que após a sentença proferida pelo juiz Sérgio Moro envolvendo o polêmico tripléx do Guarujá, Lula se colocou como pré-candidato. Propor nomes significaria afirmar que a sua condenação final é dada como certa.

O problema é que, sob esse cenário, ironicamente a única pessoa capaz de definir o calendário de uma candidatura viável de esquerda alternativa à de Lula parece ser o próprio Lula.

Dificilmente um nome escolhido aos 45 do segundo tempo conseguirá fazer mais do que figuração. Pois, com exceção de movimentos e organizações sociais, parte da intelectualidade e dos sindicatos e a militância dos partidos, a opção eleitoral por Lula não é uma escolha pelo discurso de esquerda, mas saudosismo da qualidade de vida nos tempos de inclusão social de seu governo, entre 2003 a 2010.

A esquerda precisaria correr para realizar sua autocrítica, reconstruir sua narrativa e apresentar um novo projeto de país a tempo dele ser trabalhado em suas bases e debatido com a população. Mesmo se esse processo começasse agora, há dúvidas se estaria maduro para as eleições de 2018 ou apenas 2022.

A reunião ocorrida no dia 18 de junho, em São Paulo, com representantes de movimentos e organizações sociais, sindicatos e partidos, bem como o ciclo de debates convocado pela Frente Povo Sem Medo para o segundo semestre, a fim discutir um programa para o país em uma perspectiva de reinvenção dos caminhos da esquerda, mostra que as pessoas estão buscando saídas. Que só farão sentido se forem construídas coletivamente, considerando as pautas e as lideranças de movimentos identitários e de gênero. Afinal, um Brasil apenas de homens brancos é incapaz de produzir alternativas legítimas.

Não é algo simples. Por exemplo, é raro ouvir da cúpula petista ou mesmo de Lula que o PT vai agir para que projetos aprovados ou em tramitação do governo Temer, como a Lei da Terceirização Ampla, a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência, sejam revistos. Há uma separação entre os Poderes Executivo e Legislativo, claro. Mas nada impede que, da mesma forma como já prometeram uma Transposição do São Francisco que dependia de aval do Congresso Nacional, afirmem agora que tentarão cancelar os efeitos negativos das reformas.

Isso é um dos elementos que mostram um descompasso entre o desejo da base partidária, composta por movimentos e organizações sociais e sindicatos, e das cúpulas políticas. De um lado, a necessidade da base em construir um projeto que passe pela efetivação de políticas públicas de qualidade, garanta a proteção aos direitos humanos e mude a representatividade e a forma de se fazer política – o que inclui a continuidade do combate à corrupção.

De outro, o desejo de uma cúpula de retomar o poder diante de um cenário econômico que não permite mais a conciliação lulista entre capital e trabalho. Um grupo que não abandona o discurso do desenvolvimento a qualquer preço – que levou a aberrações como Belo Monte, menina dos olhos de Dilma Rousseff, obra envolvida em desmatamento ilegal, violência contra populações indígenas e ribeirinhas, trabalho escravo e tráfico de pessoas e, claro, corrupção. Não entende muito bem quem é o novo eleitor de classe média baixa que diz representar, que toma Lula como exemplo não pela política, mas por ter vencido na vida. Segue prepotente, acreditando que entende como funciona a dinâmica de manifestações sociais, culpando a mídia por todos os seus problemas, mesmo quando eles próprios contribuíram por colocar mais combustível onde já pegava fogo. E em nome da governabilidade, palavra pichada com sangue e fezes no muro do inferno, mantém conversas som semoventes impronunciáveis.

Com os resultados das eleições municipais de 2016, pode-se dizer que a esquerda foi abandonada pela periferia das duas maiores cidades do país. De certa forma, o cenário lembrou as votações majoritárias do PT durante a década de 90. Vale lembrar que o partido levou anos, em um lento trabalho de base, com uma militância engajada, para que a periferia ''adotasse'' a sua narrativa. Claro que a periferia que votou em Lula em 2002 também estava cansada da crise do segundo governo FHC e queria mudança. Mas depois ficou ao lado do partido por conta do crescimento econômico, do aumento do salário mínimo, da diminuição da fome, do Bolsa Família e da melhoria na qualidade de vida. Quando o cenário muda, alterado pela crise econômica, da qual o PT tem culpa, o povão procura outra saída.

O debate é muito mais longo que isso. Mas não se ergue um projeto de país apenas pela negativa do que está aí ou pela saudade ao passado.

A reconstrução do PT ou mesmo a construção de outra alternativa partidária não deve ganhar fôlego enquanto o futuro de Lula não tiver sido resolvido. E pela possibilidade de competir com liminares, talvez isso não aconteça antes da campanha eleitoral estar pegando fogo – o que redobrará a importância da escolha do vice ou da vice. Porque, da última vez, o partido enfiou um goela abaixo de sua militância e, hoje, faz de conta que não o pariu.

Como me afirmou uma pessoa ligada ao PSOL, Lula é fortaleza e calabouço da esquerda ao mesmo tempo. Onde ela busca refúgio e força em momentos de crise. E onde, consequentemente, acaba ficando presa.

Se ele for candidato, muito provavelmente teremos uma eleição polarizada entre Lula e mais alguém como Alckmin, Bolsonaro ou Doria. Caso contrário, Marina e Ciro podem herdar seu lugar em um pleito menos dividido. Ou alguém do próprio PT. Pode também aparecer um ''J. Pinto Fernandes'' da esquerda, que – como diria Carlos Drummond de Andrade, ainda não entrou na história. Sem Lula, haveria espaço para um nome novo na esquerda, se a negativa de sua candidatura vier em tempo hábil. Que talvez não ganhe em 2018, mas plantaria a semente de uma mudança há muito esperada.

Segundo lideranças petistas, diante de um processo de desmonte de direitos garantidos pela Constituição de 1988, Lula seria a única candidatura viável para vencer uma eleição e barrar esses processos. Quem discorda disso afirma que sempre haverá um perigo externo usado como justificativa para aglutinar a esquerda partidária em torno de seu líder mais conhecido.

Enquanto isso, o debate público caminha em baixa qualidade, conquistando a proeza de dar espaço aos que defendem que ''fazer política é escroto''. Ou seja, ao invés de tentarmos melhorar a política, reinventar a democracia, a saída está sendo negá-la e tudo o que ela representa, buscando saídas rápidas, vazias e, não raro, autoritárias. Daí, surgem quem estufe o peito e, com orgulho, diga que não é político e não faz política. O que abre portas para que pessoas que se colocam como ''salvadores da pátria'' ganhem espaço a fim de nos ''tirar das trevas'' sem o empecilho da ''política''.

Para isso, precisamos da entrada de novos atores no jogo, que aceitem construir uma nova política partidária, para responder com democracia rompantes autoritários. O que vale para a direita e a esquerda, a bem da verdade. Isso leva tempo, humildade e sabedoria de quem já está no jogo há anos. E muita energia dos mais jovens para a construção de alternativas inclusivas e plurais.

O risco de não reconstruirmos os sonhos e a esperança é que o vazio deixado seja ocupado pelo medo do desconhecido. Um lugar escuro e frio, de onde dificilmente se escapa. Da última vez, levamos 21 anos para fugir dele.