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Leonardo Sakamoto

Rio, que segue desgovernado rumo ao caos, não pode ser só caso de polícia

Leonardo Sakamoto

21/07/2017 19h50

Uma das coisas que mais chamam atenção na falência do Estado do Rio de Janeiro são as justificativas que tentam culpar aposentadorias e direitos trabalhistas pela bancarrota, reduzindo a importância dos subsídios bilionários e isenções fiscais concedidos a empresas. E da própria corrupção, claro.

Tais justificativas acabam sendo usadas também como como argumento para a aprovação da Reforma da Previdência na esfera federal. Dizem que o Rio quebrou por irresponsabilidade com suas aposentadorias e isso pode acontecer com o país inteiro.

Ou seja, não basta os trabalhadores estarem no fundo do poço. Tentam impor uma explicação (a falta de dinheiro para a segurança e o clima de instabilidade social decorrente da crise é culpa sua) que faça com que eles se sintam culpados a ponto de aceitar pagarem a conta por isso.

O Rio está com os salários atrasados de seus funcionários públicos, o que incluem professores, médicos, assistentes, agentes de segurança, muitos dos quais têm que fazer bicos para sobreviver. Desde o início do ano, em meio à crise econômica, 90 policiais foram assassinados no Estado, a maior parte deles fora do horário de serviço. Aliás, policiais honestos são vítimas preferenciais da situação.

O governador Luiz Fernando Pezão após reunião com Michel Temer anunciou o envio de 800 policiais da Força Nacional de Segurança e da Polícia Rodoviária Federal e o desembolso de R$ 700 milhões para ações de segurança pública. O governo federal também anunciou que vai disponibilizar 40 mil militares ao Rio, a partir de agosto, para ações de longo prazo e não para policiamento ostensivo.

A maior prova de que o povo carioca é pacífico é que o Palácio Guanabara não foi ocupado, nem o governador Pezão retirado à força de lá. Pelo contrário, a Assembleia Legislativa aprova um pacote de medidas que jogam nas costas dos servidores públicos os custos para o Estado sair do buraco e o que se vê são manifestações serem reprimidas com bombas de gás.

Mas não se engane: há uma crise de instituições em curso no Rio. Parte da população cada vez mais despreza ou teme seu governo ao invés de respeitá-lo. Basta ver as denúncias de esculachos, invasões de casas sem mandado judicial e mortes com a transformação de comunidades em campos de batalha entre criminosos e a polícia militar. Aqueles que deviam proteger, não raro, adotam táticas iguais ao do outro lado com o objetivo de vencer a "guerra". Isso quando uma parcela deles não se corrompe e acaba agindo como milícia armada ou cobra propina de traficantes.

Mortes em filas de hospitais, balas perdidas matando estudantes em escolas, falta de transporte público de qualidade e déficit habitacional gigantesco contrastam com a reforma bilionária de um Maracanã subutilizado, mostrando uma inversão completa de prioridades. Ao mesmo tempo, as prisões de um ex-governador e um ex-homem-mais-rico-do-mundo por brincarem com dinheiro público insinuam ao cidadão comum que o Rio é dividido entre malandros e manés – e ele é o mané.

Iniciado, o processo de descrença nas instituições não pode ser freado do dia para a noite. Demanda nova pactuação política e social, aliada a muito suor em articulações para a construção de consensos. E os governantes do Rio parecem que não estão preocupados com essa repactuação.

Pelo contrário, acreditam que tudo vai se resolver com mais mais policiais para a rua. É importante aumentar o efetivo, ainda mais em momentos de crise, mas não só. Caso contrário, quando passar a fase aguda da crise de segurança, conviveremos bovinamente com a fase crônica. Foi assim para viabilizar os Jogos Panamericanos, a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Uma resposta consistente passa por outro tipo de ocupação do Estado, com mudanças estruturais que garantam qualidade de vida à população e perspectivas para os mais jovens.

Nesse contexto, muita gente tem orgasmos múltiplos quando vê corpos de jovens, ligados ao tráfico ou não, sangrando aqui e ali. Ou que amam qualquer tipo de execução sumária de pobre, sejam as feitas legalmente e "informalmente" pela mão do próprio do próprio Estado ao caçar traficantes em morros cariocas, sejam as feitas pelas mãos da população ao linchar suspeitos de crimes por turbas enfurecidas.

Ninguém está defendendo o tráfico, muito menos traficantes. O que está em discussão aqui é para onde estamos caminhando. Pois não será bonito de se ver o cenário pós-apocalíptico de perda de confiança nas leis e no Estado. Seja através da escolha de um governante que prometa o fim do medo através de autoritarismo, seja através do caos puro e simples.

Nem começou ainda o cada um por si e Deus por todos. O que está ali é só uma amostra. Há tempo para mudar o rumo das coisas. Mas não muito.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.