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Leonardo Sakamoto

Milagre não é Temer se manter, mas povo ter força para se levantar de manhã

Leonardo Sakamoto

05/08/2017 13h16

O sujeito, que se esfola no serviço até não aguentar mais, recebe um salário de fome e depende de programas de renda mínima para comprar o frango do aniversário do filho, chega em casa esgotado física e mentalmente após ter ralado o dia inteiro na merda de emprego que corre o risco de deixar de existir pelos planos de terceirização da empresa graças às reformas "modernizantes" do governo federal, senta-se no sofá e ouve o moço de cabelo impecável na TV dizer que bilhões foram gastos para "comprar" votos de deputados a fim de salvar Michel Temer de ser julgado por corrupção, mas também que bilhões foram desviados em escândalos de corrupção, bilhões foram garantidos em subsídios e renúncias fiscais a empresários e bilhões deixaram de ser recolhidos por conta das isenções de impostos a que os mais ricos têm direito, para, logo na sequência, ver engravatados senhores explicarem que o rombo das finanças nunca foi tão grande e que bilhões precisam ser economizados através do adiamento das aposentadorias para o país não quebre – e a cada palavra proferida pelos engravatados senhores, que parecem ter todos os dentes do mundo, um desespero genuíno vai lhe tomando conta, pois sente que seu corpo já não é como antes e se tiver que procurar um novo emprego, naquele momento da vida, estará ferrado, sua companheira estará ferrada, seus filhos estarão ferrados, seus pais estarão ferrados e, percebendo o quanto ferrado já está, seu desespero vai se transformando em vontade de quebrar tudo, não por autopiedade, mas frustração e raiva, e com a garganta embargada de choro, decide parar de pagar impostos e de seguir leis e regras injustas feitas pelas mesmas pessoas que estão lhe fodendo sem nenhuma cerimônia e resolve ir para a rua protestar contra um país que, desgraçadamente, lhe obriga a ter que escolher entre comprar o tal frango do filho ou trazer sabão e pasta de dentes para casa, enquanto alguns arrotam caviar com dinheiro de impostos, mas daí se lembra do rapaz carioca, negro e pobre, que foi preso em uma manifestação por portar Pinho Sol e, depois, preso novamente por ser acusado de carregar alguns gramas de drogas enquanto o filho de uma desembargadora foi solto ao ser pego com quase 130 quilos de drogas, e a vontade de sair quebrando tudo dá lugar à lembrança de que o país não é dele, nunca foi, e que ele é apenas a mão de obra barata que faz a engrenagem funcionar, nunca ganhará uma mala de R$ 500 mil de um dono de frigorífico por serviços prestados e mesmo se fizesse uma tatuagem de hena com o nome do ocupante da Presidência, não levaria milhões em emendas, pelo contrário, seria apenas mais um bobo pobre que acredita no governo (igual àqueles colegas do trabalho que botaram fé em tudo o que foi mandado por listas de WhatsApp e passaram a achar que o principal problema do país são os comunistas) e, respirando fundo, põe a cabeça no lugar porque tem que acordar cedo amanhã (o serviço tá atrasado), abraça forte sua companheira, que acaba de chegar de uma viagem de mais de duas horas de ônibus da casa onde é empregada doméstica, e a ouve perguntar – com aquela voz que traz paz ao mundo – se está tudo bem com ele, no que responde com um beijo em sua testa, a velha mentira do cisco no olho e um aviso de que a novela já vai começar.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.