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Leonardo Sakamoto

Por que há jovens que elegem apologistas ao estupro como seus líderes?

Leonardo Sakamoto

20/08/2017 12h12

As notificações de estupro coletivo saltaram de 1.570 para 3.526, entre 2011 e 2016. São, em média, dez casos por dia, de acordo com números obtidos por Claudia Colucci e publicados na Folha de S.Paulo deste domingo (20). Os dados são baseados em registros dos hospitais que atenderam as vítimas e, portanto, a totalidade dos casos deve ser maior do que isso devido à subnotificação. Como a reportagem explica, mulheres que passam por essa forma de ataque sentem, não raro, vergonha, humilhação e sentimento de culpa.

E não é à toa. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em setembro do ano passado, mostra que um em cada três brasileiros culpa a mulher por seu próprio estupro. Dos entrevistados, 30% achava que a afirmação "A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada" está correta. Ao mesmo tempo, 37% dos entrevistados concordava que "mulheres que se dão ao respeito não são estupradas".

E não é à toa que diante de importantes ações e campanhas que vêm sendo desenvolvidas por coletivos e organizações feministas contra a cultura do estupro, há uma reação por parte de homens, jovens ou adultos. Contra aquilo que eles definem como "seus direitos", mas que, na verdade, são "nossos privilégios" – conquistados na base da força e da opressão ao longo do tempo.

O deputado federal Jair Bolsonaro foi recentemente condenado pelo Superior Tribunal de Justiça por afirmar que a deputada federal Maria do Rosário não merecia ser estuprada – deixando a entender que ele acredita que há mulheres que merecem. À decisão, cabe recurso. Bolsonaro sabe que esse discurso recebe o apoio de uma quantidade considerável de pessoas e recebe adeptos e continua a semeá-lo. Ou seja, ele é causa e consequência.

Políticos misóginos, comediantes machistas e celebridades violentas acabam se tornando exemplos para grupos de rapazes que perceberam que a luta por direitos iguais por parte de suas colegas de classe ou de coletivo feministas significará, para eles, essa perda de privilégios. Esses influenciadores digitais ajudam a fomentar, com seus discursos violentos e irresponsáveis, uma reação à luta pelo direito básico a não sofrer violência. Difundem que o mundo está sendo tomado pelo "politicamente correto" (uma forma pejorativa de tratar os direitos humanos) e que é necessário evitar que ele fique "mais chato".

Com seus discursos e piadas, vendem a percepção de que o correto é "colocar a mulher no seu devido lugar". E, da mesma forma que campanhas contra a violência de gênero usam as redes sociais para ganhar força, a apologia ao estupro recebeu uma nova e assustadora cara com jovens compartilhando vídeos que mostram estupros na internet.

Vivemos em uma sociedade que garante que o estupro continue a ser um instrumento violento de poder, de dominação, de humilhação. Uma sociedade na qual uma das maiores agressões ao corpo e à mente de outro ser humano é banalizada, menosprezada e tratada como piada. Uma sociedade em que mulheres ainda são consideradas objetos descartáveis à disposição dos homens.

Como já disse aqui, a violência sexual não é monopólio de determinada classe social e nível de escolaridade. Quem espanca e violenta pode ter apertado o sinal de parada do ônibus ou roçado o banco de couro de um BMW. O que une os diferentes no Brasil, afinal de contas, não é o futebol, a religião ou a comida. É a violência de gênero. A cultura de estupro é um "privilégio" masculino, que vem sendo derrubado pelo feminismo ao longo do tempo, mas com dificuldade, porque encontra a resistência de homens pelo caminho.

Nossa responsabilidade como homens não é apenas evitar que nós mesmos sejamos vetores do sofrimento simbólico, psicológico ou físico das mulheres cis e trans. Neste caso, não basta cada um fazer sua parte para que o mundo se torne um lugar melhor.

Ao ver um colega relinchando aberrações inconcebíveis e não questioná-lo por isso, dando uma risadinha de canto de boca; ao ouvir aquele tio misógino defender que "mulher que se preze não usa saia curta" e ficar em silêncio; ao assistir àquele "humorista" fazer apologia ao estupro e enviar mensagem protestando às autoridades; ou ao se deparar com um amigo compartilhando histórias e vídeos de violência sexual e sua única reação foi um beicinho de desaprovação, você – em maior ou menor grau – está sendo cúmplice de tudo isso.

Nós, homens, pensaríamos duas vezes antes de falar e agir de forma machista, preconceituosa e violenta se tivéssemos medo de sermos criticados, repreendidos e humilhados publicamente também por outros homens. Mas, infelizmente, não atuamos para qualificar esse debate publicamente. Nós, homens, temos a responsabilidade de educarmos uns aos outros, desconstruindo nossa formação machista, explicando o que está errado, impondo limites ao comportamento dos outros quando esses foram violentos, denunciando se necessário for.

Isso é necessário para ajudar a garantir que as mulheres possam desfrutar da mesmo liberdade que nós temos – liberdade que nossos atos e palavras sistematicamente negam a elas. Não há paz em uma sociedade em que 85% das entrevistadas têm medo de serem estupradas.

Todos nós, homens, de esquerda, de direita, de centro, somos sim inimigos até que sejamos devidamente educados para o contrário. E, tendo em vista a formação que tivemos e a sociedade em que vivemos, que autoriza e chancela comportamentos inaceitáveis, é um longo caminho até que isso aconteça.

Por fim, seria bom que Justiça julgasse com mais rigor e celeridade casos de apologia ao estupro e de discursos que fomentam a violência de gênero. Já passamos da hora de tratar isso como "brincadeira" ou "opinião" e passar a dar o nome certo à coisa: crime de ódio.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.