Blog do Sakamoto

Pergunta que vale R$ 51 mi: Quanto tempo Geddel leva para entregar Temer?

Leonardo Sakamoto

Foto: Lula Marques

José Dirceu se mantém calado e promete ficar assim até o túmulo porque acredita ter uma causa. Antônio Palocci precisou de um ano para mostrar que entrega a mãe se necessário for – se trouxer provas a tudo o que diz saber, produzirá um belo rebosteio no PT, no sistema financeiro e em outras grandes empresas. Eduardo Cunha, após algumas semanas de xilindró, mandou perguntas escritas a Temer como parte de sua defesa no estilo ''eu sei o que fez no verão passado porque eu estava lá passando protetor solar em você''.

A pergunta que vale R$ 51 milhões agora é: quanto tempo Geddel Vieira Lima vai aguentar de bico calado na cadeia antes de começar a entregar os companheiros do ''Quadrilhão do PMDB'' que ainda estão soltos em nome de um acordo?

Após a Polícia Federal estourar a boca, quer dizer, descobrir o apartamento em Salvador que continha o que pode ser parte do ''fundo de aposentadoria'' do núcleo do fisiologismo nacional, ele foi preso. Vale lembrar que, em julho, última ocasião em que passou pela Papuda, Geddel chorou diante do juiz que o manteve sob prisão preventiva apenas três dias após ter chegado.

Três dias. Tempo insuficiente até para assistir aos episódios atrasados de Game of Thrones ou Black Mirror. Não importa se as lágrimas foram sinceras ou não, isso é indício de que ele não está disposto a amargar uma longa temporada em cana.

Claro que sou contra a perversão do instrumento que ficou conhecido como ''delação premiada''. Pessoas têm sido condenadas em praça pública com base em confissões de criminosos que querem salvar a si próprios, sem a preocupação de que os fatos sejam verdadeiros.

Feito a ressalva e considerando que o governo Michel Temer está naufragando pelo peso da corrupção que ele mesmo trouxe à luz do dia, acho que isso tem potencial para passar a limpo décadas de relações políticas. Porque uma delação de Geddel, que apoiou governos do PSDB, PT e PMDB, apenas não seria melhor do que uma delação do próprio Temer.

Os defensores da colaboração premiada apontam políticos como os únicos chefes de quadrilha, o que não é verdade. Empresários moldaram o Estado de acordo com suas necessidades, comprando e vendendo quem fosse preciso, sangrando os cofres públicos, escrevendo e aprovando leis que os beneficiavam.

Portanto, os membros do ''Quadrilhão do PMDB'' deveriam delatar os grandes empresários e os representantes do mercado, do agronegócio ao sistema financeiro, das indústrias ao comércio, de quem constrói estradas até as histórias do porto de Santos. Isso seria o empurrão que falta para uma Reforma Política real (e não o simulacro apresentado) e uma Reforma Tributária com justiça social.

De cara, também envolveria nomes importantes do tucanato, do qual também foi aliado. Baseado nas informações que traria, seria praticamente impossível a Justiça continuar se esquivando de dar o mesmo tratamento ao PSDB que tem conferido a outros partidos envolvidos em corrupção. Correligionário de Aécio dizem que ele dificilmente iria preso porque, sob uma (improvável) ameaça real de sentir o gosto de uma quentinha, diria tudo o que os investigadores querem saber. Mas, além do foro especial, sempre tem um Supremo à disposição.

Geddel deveria se inspirar no exemplo do doleiro Lúcio Funaro, outro membro do ''Quadrilhão'', que, em sua colaboração, contou que o então vice-presidente Michel Temer tramava ''diariamente'' a deposição de Dilma Rousseff com o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Nada que ninguém não soubesse, mas vindo de dentro tem sempre mais força para quem ainda não entendeu o que aconteceu e precisa que tudo seja desenhado.

Você pode achar que Dilma Rousseff faz um péssimo mandato e é uma das responsáveis pela terrível situação econômica do país, como eu acho. E pode ser contra ou a favor do impeachment, o que pouco importa para o debate deste post.

Mas se acompanha a política nacional sabe que a articulação conduzida pelo vice Michel Temer para a destituição da presidente do seu cargo, com a ajuda de Eduardo Cunha e do que há de mais bizarro no Congresso Nacional, teve rabo, orelha e focinho de conspiração. Afinal, um vice deveria ficar no seu canto, como fez Itamar Franco na época de Collor, e esperar, em silêncio, o desfecho. E não trabalhar abertamente para ficar com o Palácio do Planalto, prometendo mundos e fundos a políticos e empresários.

Aliás, Lúcio Funaro afirmou também em sua delação, já homologada pelo Supremo Tribunal Federal, que Michel Temer dividiu propina recebida da Odebrecht com Geddel Vieira Lima.

Por isso, gostaria de falar agora com Geddel: Meu caro, você está preso. Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco, não. Você terá que trocar o uísque por Maria-Louca. E não vai rolar mais delivery de pizza gourmet, apenas jumbo. Enquanto eles aproveitarão praia, você ficará curtindo um banho de sol. Pensa bem, eles valem a pena?

Delata tudo, Geddel.