Blog do Sakamoto

O dia em que São Paulo queimou uma “bruxa”

Leonardo Sakamoto

Boneco simbolizando a filósofa Judith Butler foi queimado durante o protesto. Foto: Tiago Queiroz/ Estadão Conteúdo

Por Maíra Kubik Mano, especial para o blog (*)

Um grupo pequeno de pessoas foi à porta do SESC Pompeia, nesta terça (7), em São Paulo, para protestar contra a participação da filósofa estadunidense Judith Butler. O evento, organizado pelo professor da USP Vladimir Safatle, era para discutir democracia. Não deixa de ser irônica que com essa temática houve uma tentativa de silenciá-la.

Em um dado momento, os manifestantes queimaram um boneco de uma bruxa que representaria Butler. O simbolismo é forte: as milhões de fogueiras feitas com mulheres acusadas de bruxaria durante a Idade Média foi um dos grandes epistemicídios (ou seja, a destruição de conhecimentos, saberes, cultura) da história, como afirma o sociólogo portorriquenho Ramón Grosfoguel.

Isso significa que aquelas pessoas que estavam ali em São Paulo, ao escolherem precisamente aquela forma de se colocarem para protestar, reivindicavam o aniquilamento físico e científico de alguém e de sua teoria.

Uma pessoa e seus livros que, provavelmente, não foram lidos por eles. Alguém que não foi sequer escutada para saber se o que ela diz é condizente ou não com os fantasmas que se criaram acerca dela. Uma intolerância à priori, um veto, um impedimento – como tantos que estamos vivendo nesses tempos obscuros.

Infelizmente, não estou chocada. Problematizar o patriarcado e as relações de desigualdade sempre causou reações de pessoas que não estão dispostas a respeitar a existência de outras pessoas e querem se fazer impor pela força.

Um dos exemplos disto, como nos mostra a historiadora italiana Silvia Federici, que recentemente lançou no Brasil seu livro “Calibã e a Bruxa”, é que na Idade Média houve uma deliberada política sexual fragmentadora das mulheres até então organizadas em grupos e comunidades.

Folheto alemão sobre a queima de bruxas em Derenburg, na Alemanha, em 1555. Foto: Reprodução

Essa política foi materializada por meio de estupros coletivos, institucionalização da prostituição e da caça às “bruxas” – e espalhou-se mundo afora com a violência do colonialismo.

Essa misoginia, que nesse momento foi inculcada, gravada no espírito e nas estruturas do sistema, atravessou os tempos, como vimos ontem.

E continua no dia a dia, com fogueiras modernizadas. Fabiane Maria de Jesus foi acusada de sequestrar crianças para um ritual de bruxaria porque ela pareceria com um retrato falado de um boato que circulou em redes sociais. No dia 3 de maio de 2014, foi cercada por uma turba. Levou chutes, pauladas e acabou arrastada pelas ruas de terra do bairro no Guarujá, onde morava. Foi linchada até a morte.

Mas talvez a consideração mais relevante que podemos fazer desse triste episódio envolvendo Butler é que o grupo era pequeno, com pouca representatividade. Como disse uma amiga jornalista, Nanda Gallas, “o protesto, frente ao que estava sendo alardeado, foi um fracasso de público, enquanto o teatro estava lotado para o evento”.

Esse esvaziamento é um sinal poderoso já que, para que esse fascismo social ser um movimento de fato, ele precisa ser de massas.

E ele não é. Ainda.

(*) Maíra Kubik Mano é jornalista, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e professora do programa de Pós-graduação em Estudos Interdisciplinas sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia.

Foto: Reprodução Twitter/Alexandre Frota