Blog do Sakamoto

Temer diz que não constrange deputado. Mas ele gosta de nos envergonhar

Leonardo Sakamoto

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

''Vai ficar para fevereiro? Ótimo! Para fevereiro, vocês sabem por quê? Porque nós contamos votos. Enquanto não tivermos os 308 votos, não vamos constranger nenhum deputado.''

O que mais indigna não é a encenação protagonizada pelo nobre ocupante do Palácio do Planalto ao fingir que conta com legitimidade, credibilidade e apoio político para executar a Reforma da Previdência e que tudo é uma questão de tempo – enquanto qualquer morsa com cãibra sabe que o tempo aqui não joga a favor de Michel Temer, mas contra. Quanto mais próximo estiver do calendário eleitoral, mais difícil fica aprovar a impopular ''mexida'' nas aposentadorias.

O que mais indigna é ele, a esta altura do campeonato, ainda falar que se preocupa em constranger alguém.

Assistimos, nos últimos meses, a já promíscua relação entre os Poderes Executivo e Legislativo perder os últimos pudores e se transformar em bacanal a fim de salvar o pescoço de Michel Temer da guilhotina da Lava Jato. Com emendas liberadas, cargos destinados, leis e portarias aprovadas e perdões de dívidas públicas garantidos, deputados e governo refestelaram-se de prazer.

Antes que alguém reclame, não sou moralista, longe disso. O problema é quando meia dúzia se diverte enquanto o povão fica só assistindo, sem direito a uma alegria sequer, tendo que, ao final, pagar uma fatura pornográfica e, ainda por cima, limpar o recinto.

Havia uma forma dele não constranger ninguém, deputado ou população. Mas isso teria passado por sua renúncia e a convocação de eleições diretas para a Presidência da República. Pelo menos é o que um democrata teria feito diante de uma crise institucional como aquela em que vivemos. O problema é que, em busca de manter o foro privilegiado, o respeito à coisa pública sempre vai para o ralo.

Temer, então, segue repetindo e repetindo que a Reforma passará. Precisa mostrar que ainda é útil para o grupo que detém o poder econômico, um dos fiadores do impeachment, mesmo que não acredite nisso. Temo, contudo, que se mercado e grandes empresários realmente estiverem acreditando em Temer é porque não são muito mais espertos do que as supracitadas morsas.

Melhor, portanto, seria se contentarem com a pilhagem de direitos de trabalhadores realizada através da Reforma Trabalhista e da Lei da Terceirização Ampla. Aprovadas a toque de caixa e sem debate público, tal como vem acontecendo com a Previdência, elas já foram dois grandes rasgos em nossa combalida democracia.

Não poderia terminar este texto, contudo, sem uma paráfrase mal-feita de Fernando Pessoa: Temer é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é pudor. O pudor que nem de longe sente.