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Temer quer alguém que tatue o seu nome na testa. Não serve no ombro?

Leonardo Sakamoto

18/12/2017 16h16

 

Chateado com a declaração do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, de que a base aliada não precisa de um candidato à Presidência da República que faça uma tatuagem "eu sou Michel Temer" na testa, mas apenas defenda uma agenda de reformas, o ocupante do Palácio do Planalto retrucou.

"Quem for candidato a presidente e dizer que vai continuar ou que terá um governo também de reformas estará cravando na sua campanha eleitoral a tese do acerto do nosso governo." E foi além: "E estará gravado 'governo Michel Temer' no programa que vai ser estabelecido para o futuro por nós, que ousamos fazer uma revolução na política administrativa e econômica do nosso país".

Temer não deveria se preocupar com essas picuinhas. Se Rodrigo Maia quer se afastar dele, tudo bem. O presidente já tem um lugar garantido na história.

Nunca antes um supremo mandatário foi denunciado criminalmente pela Procuradoria-Geral da República no exercício de seu mandato. E não feliz com o ineditismo, Temer repetiu a dose em uma segunda denúncia. Além do mais, atingiu um índice de aprovação que até os matemáticos pensavam apenas ser teoricamente possível, algo entre 3% e 5% de ótimo e bom.

E, certamente, seu legado não será esquecido. Seu grupo político atuou abertamente para forçar o impeachment, ou seja, conspirou para ficar com a vaga. Depois, comprou votos para engavetar as denúncias de corrupção e aprovar pautas que interessavam a seus aliados políticos e econômicos. Passou por cima de leis e regras e deu de ombros à ética e ao cuidado com a coisa pública.

O resultado disso? Diante da certeza de que as instituições do poder público não possuem legitimidade e credibilidade para assumirem um papel de mediação, uma vez que elas próprias são parte integrante do conflito, o Brasil abriu espaço para o questionamento da própria democracia. O cultivo do ódio e a dificuldade de diálogo não são novidade. Mas quando encontram o terreno fértil da percepção de falta de regras do jogo, o bom senso implode.

A partir do momento em que regras, normas e leis são ignoradas em nome da manutenção de uma parte do poder político e de uma agenda do poder econômico, envia-se uma mensagem à sociedade: não há limites. Ou seja, se as instituições que nos mantém coesos como país não valem mais, vigora agora a lei do mais forte. Ou do mais esperto.

Por mais que a economia cresça no ano que vem, é difícil imaginar que o número de empregos gerados será suficiente para tirar o nome do governo Michel Temer da lama. Ainda mais porque ele espirrou lama para todo lado ao tentar salvar a si e aos seus.

A reação de Michel Temer à tentativa de Rodrigo Maia de se desvencilhar de seu governo mostra que ele está se preocupando com o futuro em um sentido mais prático. Isso tem a ver com a construção de um ambiente mais favorável para quando deixar o poder. O que inclui sua própria liberdade diante do término da validade de seu foro privilegiado.

Há, contudo, um prêmio de consolação. Se Temer não conseguir ninguém que tope tatuar seu nome na testa, pode sempre recordar do deputado federal Wladimir Costa, do Solidariedade do Pará. Em agosto, ele fez uma tatuagem com o nome de Temer e uma bandeira do Brasil. Explicou ter pago R$ 1200,00 em seis vezes por ela e que a homenagem era real e definitiva. "Doeu um pouco, mas eu lembrava do Temer, passava a dor", confessou sobre o processo. Depois, assumiu que era temporária.

Políticos não são comprados, mas alugados. O apoio dura enquanto for regado com recursos financeiros. Se a torneira seca, por maiores que tenham sido as juras de fidelidade, o apoio desaparece. E tal como acontece em uma camisa de futebol ou um macacão de piloto de automobilismo, o caminho do ombro direito ou da testa fica livre para ser ocupado por outro patrocinador, por quem pagar mais.

O ocupante do Palácio do Planalto, cioso de como sua biografia será tratada, acredita que será lembrado como um grande reformista. Contudo, ao não tendo pudores de transformar o cargo mais importante do país em uma feira livre em nome da preservação do próprio pescoço e do de seus aliados, sua reputação não resistirá ao tempo.

O nome "Temer" deve ser  uma tatuagem de hena que sai depois de muitas lavagens.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.