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Verifique aqui se a sua marca de roupa favorita combate a escravidão

Leonardo Sakamoto

19/12/2017 15h40

O "Moda Livre", aplicativo para consumo consciente de roupas, acaba de passar por nova atualização a tempo de ajudar os compradores neste Natal. Foram incorporadas 17 novas marcas e lojas à ferramenta, incluindo, pela primeira vez, nomes conhecidos como Topper, Rainha, Timberland, Reserva, Hope e Mash. Dessa forma, o app passa a contar com 119 grifes e varejistas avaliados em sua base de dados. Desde seu lançamento, em 2013, ele já foi baixado mais de 100 mil vezes.

O Moda Livre avalia e monitora as ações que as principais empresas do setor vêm tomando para evitar que as suas peças produzidas no Brasil sejam contaminadas por mão de obra escrava. Além disso, oferece ao consumidor notícias sobre casos de escravidão contemporânea na cadeia de valor do vestuário nacional.

A revelação, nesta terça (19), de que migrantes bolivianos trabalhavam mais de 12 horas por dia em oficinas precárias da capital paulista, ganhando em média R$ 5 para costurar peças das marcas Animale e A.Brand vendidas por valores até 120 vezes superiores, elevou para 37 o número de grifes e varejistas de roupa responsabilizadas pela exploração de trabalho escravo desde 2010.

Mais de 400 costureiros e costureiras foram encontrados em condições análogas às de escravos no Brasil nesse período. A maioria dos casos ocorre em pequenas confecções tercerizadas, na Região Metropolitana de São Paulo. As vítimas mais comuns são migrantes de países sulamericanos que trabalham em oficinas em condições degradantes, suscetíveis a incêndios e caracterizadas pela falta de higiene, e que muitas vezes também servem de moradia aos trabalhadores. Eles recebem valores muito baixos por peça costurada e são submetidos a jornadas exaustivas na esperança de guardar algum dinheiro. Não raro, são obrigados a trabalhar para pagar dívidas fraudulentas com os patrões devido ao financiamento da viagem de seus países de origem até o Brasil.

O Moda Livre avalia tanto as empresas responsabilizadas por essa prática como também aquelas que nunca foram alvo de denúncias e fiscalizações do governo.

Faça o download gratuito do aplicativo para iOS (iPhone) e Android 

 Trabalhadores produzindo peças para oficina responsabilizada por trabalho escravo (Foto: MPT/Divulgação)

Trabalhadores produzindo peças para oficina responsabilizada por trabalho escravo (Foto: MPT/Divulgação)

O aplicativo convida todas as companhias a responder a um questionário-padrão que avalia basicamente três indicadores: 1) Políticas – compromissos assumidos pelas empresas para combater o trabalho escravo em sua cadeia de fornecimento; 2) Monitoramento – medidas adotadas pelas empresas para fiscalizar seus fornecedores de roupa; 3) Transparência – ações tomadas pelas empresas para comunicar a seus clientes o que vêm fazendo para monitorar fornecedores e combater o trabalho escravo; 4) Histórico – resumo do envolvimento das empresas em casos de trabalho escravo, segundo dados das autoridades competentes.

O histórico da marca ou da loja também é avaliado de acordo com pesquisa junto ao Ministério do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho a fim de verificar o envolvimento em casos de trabalho escravo.

As respostas geram uma pontuação e, com base nela, as empresas são classificadas de acordo com o que vem fazendo para combater a escravidão em três categorias de cores: verde, amarelo e vermelho. As empresas que não respondem ao questionário, apesar de sucessivos convites, são automaticamente colocadas na vermelha devido à ausência de transparência.

Das 119 marcas monitoradas pelo Moda Livre, 18% estão na categoria verde. São empresas que demonstram ter mecanismos de acompanhamento sobre sua cadeia produtiva, e que possuem histórico favorável em relação ao tema. Na categoria intermediária – amarelo – estão 36% das marcas. Os 46% restantes estão na categoria vermelho, ou seja, não demonstraram ou não informaram adotar ações minimamente adequadas para evitar casos de trabalho escravo na produção de suas roupas.

O Moda Livre não recomenda que o consumidor compre ou deixe de comprar roupas de determinada marca. Apenas fornece informação para que faça a escolha de forma consciente. O aplicativo é fruto da apuração da equipe de jornalismo da Repórter Brasil e do design e desenvolvimento da agência PiU Comunica.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.