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No Brasil, artista nu é polêmica maior que condenado por estupro fazer lei

Leonardo Sakamoto

06/01/2018 20h49

Foto: Pedro França/Agência Senado

O caso do suplente de deputado federal condenado por estupro e submissão de adolescente à exploração sexual que pode assumir cadeira na Câmara repercutiu incomparavelmente menos nas redes sociais, nesta semana, do que a polêmica criada em cima da performance de um artista nu no Museu de Arte Moderna (MAM) em São Paulo entre setembro e outubro do ano passado.

Um levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital, ligado ao Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação da Universidade de São Paulo, aponta que o caso do deputado acusado de estupro de adolescente foi compartilhado, ao todo, cerca de 60 mil vezes. Enquanto isso, a polêmica do MAM chegou a quase 2 milhões de compartilhamentos. O Monitor acompanha um grande leque de sites e páginas de jornais, revistas, portais, blogs e veículos e páginas alternativos, tanto os de direita quanto os de esquerda.

Por que uma parte da sociedade e das redes sociais surtou alucinada quando um artista nu fez uma performance e uma criança, acompanhada pela mãe, tocou o seu pé, mas permanece quase letárgica quando um condenado por estupro de adolescente assume uma cadeira de deputado?

Talvez seja a forma que a história está sendo contada.

Façamos uma experiência: trocar "Câmara dos Deputados" por "museu" e "político" por "artista" e ver se isso ajudar a causar alguma indignação:

Um "museu" deve ser palco, a partir deste ano, da obra de um "artista" condenado a 12 anos por estupro, submissão de adolescente à exploração sexual e coação durante o processo. Ele chegou a cumprir mais de quatro meses de prisão por conta de uma relação com uma jovem de 15 anos, mas conseguiu um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal. Segundo a denúncia oferecida à Justiça, meninas pobres eram mantidas em cárcere privado, sob vigilância armada, para serem exploradas sexualmente. Obrigadas a consumir psicoativos antes dos programas, eram levadas de carro aos locais onde seriam estupradas – único momento em que podiam ver o lado de fora. Algumas chegavam com o nariz sangrando por conta do consumo de cocaína. O processo também diz que correntes e cadeados eram usados para mante-las presas. Algumas chegavam a fazer até 30 programas em um só dia. O caso envolveu políticos e empresários no Norte do Rio de Janeiro e ficou conhecido como o das "Meninas de Guarus".

O "artista" se chama Nelson Nahim (PSD-RJ), que pode ficar com a vaga deixada pela deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ), filha de Roberto Jefferson, que está assumindo o ministério do Trabalho. Nahim foi presidente da Câmara dos Vereadores de Campos (RJ) e, como suplente, chegou a exercer o mandato como deputado federal duas vezes – uma por um único dia, em 2015, e outra, por duas semanas, em 2017. É irmão e adversário político do ex-governador carioca Anthony Garotinho.

Passado um tempo dos acontecimentos de setembro e outubro, não é difícil perceber que os incitadores contra a performance no MAM ou mesmo aqueles a favor da censura da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, não queriam combater a "pedofilia", como queriam fazer crer. A questão era poder e influência sobre a massa.

Como parte da população não se importa em entender o sentido de uma mostra artística, muito menos se ela promove realmente "exploração sexual", milícias digitais despejaram o significado que desejavam em manifestações artísticas, conectando-as a ódios ancestrais e tabus. Contam com o fato que as pessoas não gastam energia para checar a realidade e o contexto.

A turba, a partir daí, seguiu a lógica de retroalimentação vazia do linchamento. Ou seja: não importa o que aconteceu de verdade, se alguém está apanhando da turba é porque é culpado de algo.

Quem comandava o show ou sabia como dele se apropriar, contudo, organizou essa massa com o objetivo de promover sua imagem como "guardião dos valores" de um determinado naco da população e ser visto como sua "consciência crítica".

Dessa forma, tentou aumentar sua capacidade de construir significados e sentidos coletivos. Mais do que isso: trouxe esse naco para perto de sua área de influência e passou a ter poder sobre ele. O valor dessa incremento poderá ser analisado nas eleições gerais deste ano.

O problema é que enquanto parte da sociedade ficou escandalizada com um homem nu em uma performance artística, a Câmara dos Deputados aprovou um pornográfico perdão bilionário de dívidas públicas de parlamentares-empresários e de grandes empresas em meio à crise econômica. Que segue sendo jogada apenas no lombo do trabalhador – seja com o congelamento de novos investimentos públicos em áreas como educação e saúde pelos próximos 20 anos, seja com reformas que reduzem a proteção à saúde e segurança dos mais vulneráveis.

O deputado Nelson Nahim diz ser inocente e atesta que a condenação tem caráter político. Afirmou ao portal G1 que pretende "aproveitar a oportunidade [do cargo] não só para exercer o mandato que a população me confiou, mas também para esclarecer para a grande mídia o verdadeiro fato, ou seja, o que há de concreto no processo".

Se não fosse uma decisão contrária do Supremo Tribunal Federal, o artista que se apresentou no MAM seria conduzido coercitivamente para depor em uma CPI no Congresso Nacional. O parlamento segue sendo um lugar que abraça e trata bem acusados de corruptos, de roubo, de apologia ao estupro, de trabalho escravo, de tentativa de homicídio, entre outros. Portanto, Nahim não deve temer qualquer tipo de constrangimento. Ele pode se sentir em casa.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.