Blog do Sakamoto

“Cracolândia acabou”, disse prefeito. Mas ela segue apanhando da PM em SP

Leonardo Sakamoto

Foto: Ouvidoria da Defensoria Pública do Estado de São Paulo

Sabe qual o grande problema do Brasil? Os malditos fatos – esses rebeldes transgressores – cismam em não obedecer aos discursos dos políticos.

Em maio do ano passado, a administração da capital paulista e o governo de São Paulo baixaram a porrada nos usuários de psicoativos na região da Luz, demolindo até imóvel com gente dentro, sob o pretexto de acabar com o fluxo de venda e consumo de drogas. Afinal, primeiro a Cidade Linda, depois a Dignidade Humana.

Ao invés de aprofundar as ações de acolhimento às pessoas com dependência, a taquara correu solta. Como se isso quebrasse as pernas do tráfico e resgatasse a mundialmente fracassada política de guerra às drogas – que abraça o porrete ao invés do diálogo.

Após o pega-pra-capar e o deus-nos-acuda, João Doria cravou um inesquecível ''a Cracolândia aqui acabou''.

Contudo, a realidade megera negou-se a ficar de joelhos diante das palavras do prefeito. E o fluxo do crack se deslocou algumas centenas de metros.

Pode ser que ele tenha dito que ela havia acabado ali, apenas naquela esquina entre a alameda Dino Bueno e a rua Helvétia, onde ficava o coração de seu fluxo. Afinal, seria muita cara de pau.

Desde então, de tempos em tempos, o poder público volta com força bruta para ''convencer'' a Cracolândia de que ela acabou – mesmo que isso vá de encontro ao que os cinco sentidos apontam.

Reportagem do UOL, desta quinta (11), mostra que policiais militares e guardas civis metropolitanos foram acusados de jogar bombas, atirar balas de borracha e lançar spray de pimenta contra pessoas com dependência química em uma Cracolândia que não existe na região da Luz.

E, uma vez que ela não existe, pode-se assumir qualquer narrativa para aquele caos.

Uma explicação interessante seria que os feridos são, na verdade, militantes comunistas fundamentalistas que, com algazarra, faziam propaganda ideológica pintando, com seu próprio sangue, as ruas de vermelho a fim de tentar convencer a população de que a revolução bolivariana está próxima. Coisa do Foro de São Paulo, claro.

Se a Cracolândia existisse, talvez fosse vista como uma questão de saúde pública. Até porque intervenções policiais contra pessoas com dependência destroem ações de longo prazo voltadas a reduzir a sua vulnerabilidade e a reinclui-las socialmente.

Ao mesmo tempo, se a Cracolândia existisse, talvez as empresas que implantaram empreendimentos imobiliários ou contam com propriedades por lá, confiando em garantias que o poder público nunca poderia ter dado, estariam em pânico.

Mas como ela não existe, o que ocorreu nestas quarta e quinta não foi crime. E, portanto, não será julgado, nem questionado. Foi apenas mais uma cena pitoresca da negação da vida humana na maior cidade do país.