Blog do Sakamoto

Para a Prefeitura de SP, o que acontece no Carnaval fica no Carnaval

Leonardo Sakamoto

Bloco na 23 de Maio passa ao lado do hospital Beneficência Portuguesa. Foto: Joel Silva/ Folhapress

Muita gente aproveita o Carnaval para ser outra pessoa diferente. Para elas, na Quarta-feira de Cinzas, tudo volta ao normal. A administração João Doria (PSDB) provavelmente é adepta dessa filosofia.

Sua decisão de levar para a avenida 23 de Maio grandes blocos de Carnaval se, por um lado, foi sucesso de público, por outro causou grandes transtornos aos pacientes internados em alguns dos seis grandes centros médicos do entorno da avenida. De acordo com reportagem de Angela Pinho e Marina Estaque, na Folha de S.Paulo, desta terça (13), vidros tremiam e crianças choravam por causa do barulho causado pelos blocos no Hospital Beneficência Portuguesa.

Por favor, não pense que sou um mal-humorado contrário à festa. Pelo contrário, fanático assumido, vou a quantos blocos for humanamente possível. Prefiro os menores, mas entendo quem goste de uma versão paulistana dos circuitos de Salvador. Afinal, há espaço para tudo na cidade.

A discussão, portanto, não é sobre a realização ou não de eventos em grandes avenidas, mas a falta de planejamento urbano e de estudos de impacto. Esses elementos aliados à vontade do grupo no poder em São Paulo de aproveitar a data para fazer propaganda política acabam gerando transtornos para uma parte da população. Que, quando reclama, ainda é tachada de chata como se não houvesse outras opções.

O corredor da avenida 23 de Maio foi escolhido pelo prefeito para um dos projetos de sua administração, com a implantação de jardins verticais no lugar de grandes painéis de grafites – o que gerou, na época da mudança, grande comoção por conta da cidade ser reconhecida como uma das capitais globais da arte de rua.

A 23 de Maio era a única grande avenida com esse perfil? Não havia outro local para a realização do evento, algum que evitasse o impacto junto a hospitais? Aonde o impacto seria menor e o acesso a transporte público seria melhor, lá ou na avenida Paulista? Esse impacto nos hospitais poderia ter sido mitigado de alguma forma?

Em abril do ano passado, a Prefeitura de São Paulo negou à Central Única dos Trabalhadores (CUT) a realização de seu evento de Primeiro de Maio na avenida Paulista. Usou como justificativa um acordo assinado com o Ministério Público, ainda na gestão Fernando Haddad, que impede o fechamento da via por tempo prolongado, entre outras coisas, por causa dos hospitais que funcionam no entorno além de um número de eventos pré-determinado. No final, com a intermediação do Tribunal de Justiça, parte do evento pode ser liberado.

Se houve uma preocupação com o impacto no entorno da avenida Paulista com relação ao evento da CUT, o mesmo não pode ser dito sobre o Carnaval sob responsabilidade da Prefeitura no entorno da 23 de Maio.

A Folha de S.Paulo ouviu o prefeito João Doria, neste domingo, sobre o problemas levantados pelo Carnaval na avenida.''Aqui em Salvador, o Carnaval passa na frente dos hospitais. No Rio também. As pessoas têm que compreender. Faz parte da novidade'', disse Doria. Ele ressaltou que a festa termina às 20h. ''É um horário que não perturba ninguém.'' Ninguém com exceção dos pacientes e médicos.

Será que o prefeito usaria a mesma justificativa se fosse um evento, que também reunisse uma multidão, mas organizado por sindicatos ou movimentos sociais com os quais não concorda?

De qualquer forma, em último caso, ele pode alegar que o que acontece no Carnaval fica no Carnaval.