Blog do Sakamoto

Intervenção no Rio: Aproveitando medo do povo, governo promete uma mentira

Leonardo Sakamoto

Michel Temer, satisfeito. Rodrigo Maia, contrariado. Luiz Fernando Pezão, capitulado. Foto: Beto Barata/PR

Uma população assustada com a violência quer acreditar que exista uma saída rápida e fácil para fazer com que ela volte a se sentir segura.

É, portanto, compreensível que uma grande quantidade de pessoas afirme que a intervenção federal no Rio de Janeiro, sob comando das Forças Armadas, irá reduzir a violência. Mesmo com a montanha de evidências de que ela não passou por planejamento e foi lançada como uma forma do governo ganhar popularidade e distrair a sociedade para sua incapacidade de aprovar a Reforma da Previdência que tanto prometeu.

Essa população com medo, quando confrontada com números de outros países, outras cidades brasileiras ou mesmo do Rio, mostrando que interferências com comando de militares apenas jogam mais gasolina no fogo, não resolvendo o problema e aprofundando a corrupção na caserna, simplesmente grita que os dados são ''notícia falsa''.

E tapa os ouvidos ao escutar que as Forças Armadas não são treinadas para operar esse tipo de ação de policiamento, muitas vezes da boca dos próprios comandantes. Teme que deixar suas crenças serem testadas pela razão pode revelar que problemas complexos não podem ser resolvidos por saídas simples. O que, convenhamos, é desesperador.

Ao se agarrar a promessas vazias, não consegue entender o que é e como funciona uma comunidade dominada por facções criminosas. E que inocentes costumam morrer em conflitos ocorridos nesses territórios. Aceitam que o Estado mate quem for preciso para garantir a ordem. Mesmo que, ao final, isso signifique o sangue de dezenas de policiais e soldados e de milhares de moradores inocentes. Uns lamentam o que chamam de ''dano colateral'', outros dizem abertamente que se morreu é porque alguma culpa tinha.

Seria ótimo que, ao invés de propor uma saída fácil, vazia, marqueteira e eleitoreira, o governo Michel Temer tivesse chamado as comunidades afetadas para construir um plano de ação, evitando soluções impostas de cima para baixo que têm servido apenas ao controle populacional das chamadas ''classes perigosas''.

E que também trouxesse a público a discussão sobre a desmilitarização da força policial (o que significa mudar seu treinamento a fim de priorizar a proteção da população antes de matar inimigos), ao mesmo tempo em que buscasse a melhora de seus salários e de suas condições de trabalho. E investisse em inteligência policial e no cruzamento de dados da segurança pública, além de tornar efetiva a punição caso seja constatado o envolvimento de policiais em delitos. E desse voz aos policiais honestos para que ajudassem a encontrar saídas. Afinal, eles também tombam de forma inaceitável não apenas no cumprimento do dever, mas também como vítimas de crimes, quando descobertos nos bairros e comunidades pobres em que moram.

Se o debate sobre segurança pública não passar por ações estruturais que melhorem a qualidade de vida, garantam justiça social, permitam que o jovem pobre tenha perspectiva real de futuro, não teremos solução sustentável. Pois matar geral e colocar criança em cadeia privatizada só piora o quadro. A cada soldado do tráfico abatido, há outros dez na fila para entrar. Para cada dono de morro preso, surgem imediatamente outros três. Sem contar que acabar com as facções no Rio sem entrar fortemente com um Estado de bem-estar social, é um convite à substituição por uma filial do PCC.

E, é claro, enterrar a fracassada política de ''guerra às drogas''. Enquanto ela for mantida e não caminharmos para a descriminalização paulatina, encarando o problema como de saúde pública, o Estado seguirá alimentando o tráfico de armas e promovendo violência. Isso sem contar que os grandes traficantes não estão na favela, mas moram em casas confortáveis em bairros chiques de grandes cidades.

É importante frisar que o fracasso em políticas de segurança não é monopólio da direita, do centro ou da esquerda – todos têm sido responsáveis pelo buraco em que estamos. PT e PSDB, porque governaram o país e grandes estados da federação por muito tempo. E o PMDB porque sequestrou o país.

O problema é que a discussão racional e serena sobre esse tema, que já é difícil normalmente, torna-se impossível em um momento como este. Considerando que a polarização burra levará a ignorar tudo aquilo que não estiver de acordo com as crenças de cada um e que conteúdo falso irá circular loucamente nas redes sociais para aprofundar esse abismo, será um pesadelo.

A cúpula do governo federal, sabendo que a população tende a encarar soluções estruturais e complexas como mimimi de quem não quer resolver o problema, aproveitou para lançar uma intervenção insustentável e que não alcançará seus objetivos. Promete circo para quem pede pão, na torcida de que o povo – inebriado pelo espetáculo – fique tão entretido que não perceba quando ela fugir sem entregar a comida. E, o pior: com o dinheiro dos ingressos.