Topo
Blog do Sakamoto

Blog do Sakamoto

Categorias

Histórico

Mulheres trabalham mais que homens. Mas tentamos convencê-las do contrário

Leonardo Sakamoto

07/03/2018 11h33

Trabalhadora migrante boliviana em oficina alvo de resgate de trabalhadores escravizados em São Paulo. Foto: MPT

Mulheres dedicam 18,1 horas semanais aos cuidados de pessoas ou afazeres domésticos, o que representa 73% a mais do que os homens (10,5 horas semanais). No Nordeste, a desigualdade chega a representar 80% a mais. Mulheres negras são as que mais se dedicam a essa tarefa, com 18,6 h/semana.

Os números fazem parte das "Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil", divulgado pelo IBGE, nesta quarta (7), e referem-se ao ano de 2016.

Segundo a publicação, que está disponível para ser baixada no site da instituição, 28,2% das mulheres trabalha em tempo parcial, enquanto 14,1% dos homens se encaixa nessa categoria. Isso se deve, de acordo com o IBGE, por terem que conciliar trabalho remunerado aos afazeres domésticos.

Para compreender esse dado, ele deve ser analisado conjuntamente com outro divulgado pelo mesmo IBGE em dezembro do ano passado. De acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, somando-se as horas dedicadas às atividades no domicílio e à ocupação remunerada, as mulheres trabalharam mais tempo do que os homens, com uma carga horária média que ultrapassou 54 horas semanais em 2016. Os homens trabalharam, em média, 51,5 horas semanais.

O problema é que trabalho doméstico ainda não é considerado trabalho, mas sim obrigação, muitas vezes relacionada a um gênero (e, não raro, também a uma cor de pele) que tem o dever de cuidar da casa.

Dever este que não está no código genético da humanidade, mas foi construído e imposto. E, transformado em tradição e cultura, é abraçado e dificilmente discutido. Como se a mulher, e apenas ela, cuidar da casa e dos filhos fosse a coisa mais natural do mundo.

É sintomático, portanto, que apenas recentemente a Organização Internacional do Trabalho tenha conseguido aprovar uma convenção para igualar direitos para trabalhadoras domésticas em relação ao restante da sociedade. Ou que o Brasil apenas em 2015 tenha finalmente regulamentado a emenda constitucional que abriu uma fresta de luz na senzala dessa categoria, garantindo a elas os mesmos direitos desfrutados pelo restante da população. O que levou, é claro, a um ranger de dentes dos herdeiros da Casa-Grande.

A questão da jornada tripla (trabalhadora, cuidadora de crianças e idosos e responsável pela casa) é apenas um elemento para corroborar o fato de que vivemos em uma sociedade com um pé no futuro e outro no passado. A qual todos nós pertencemos e, portanto, contribuímos com a perpetuação de suas bizarrices. Principalmente nós, homens.

Mulheres seguem recebendo, em média, cerca de 75% do que os homens recebem. Em 2016, enquanto o rendimento médio mensal dos homens era de R$2.306, o das mulheres era de R$1.764. A remuneração por hora trabalhada comprova a desigualdade estrutural: mulheres recebem, em média, 86,7% do que os homens. A situação piora na comparação com quem tem ensino superior: as mulheres ganham 63,4% do que os homens recebiam.

Contudo, mulheres deveriam ganhar 10,4% a mais que os homens no Brasil, considerando sua formação, experiência e produtividade em relação à atividade econômica e à posição profissional. Esse dado fez parte do "Relatório sobre Salário Global", divulgado Organização Internacional do Trabalho.

Um dos fatores apontados pela entidade das Nações Unidas é a discriminação – aqui muitas vezes travestida das já citadas cultura e tradição. Até porque violência de gênero não se manifesta apenas através da porrada, mas possui mecanismos mais sutis.

O fato de termos tido uma mulher na Presidência da República e contarmos com uma na Presidência do Supremo Tribunal Federal pode ser simbolicamente relevante, mas é social e politicamente insuficiente, não servindo para justificar nenhuma mudança estrutural. São poucas as governadoras, prefeitas, senadoras, deputadas, vereadoras. Mas também CEOs, executivas, gerentes, síndicas de condomínios.

Segundo o IBGE, as mulheres continuam com menos acesso a cargos gerenciais do que os homens. No Brasil, em 2016, 62,2% dos cargos gerenciais, tanto no poder público quanto na iniciativa privada, eram ocupados por homens e 37,8% por mulheres.

Em dezembro de 2017, segundo a pesquisa divulgada hoje, o percentual de mulheres parlamentares no Congresso Nacional era de 11,3%. No Senado, 16%, e, na Câmara dos Deputados, 10,5%. Três estados brasileiros não tinham nenhuma deputada federal: Paraíba, Sergipe e Mato Grosso. Isso colocava o Brasil na 152ª posição entre os 190 países que informaram a quantidade de assentos em suas câmaras de representantes ocupados por mulheres. Na América do Sul, nós ostentamos o pior resultado.

Falta criar condições não apenas para que elas cheguem lá mas, chegando, sejam tratadas com o mesmo respeito que nós, homens. O que inclui a adoção de direitos reprodutivos nas políticas corporativas, por exemplo, garantindo que carreiras não sejam sepultadas na maternidade. Mas também uma mudança de mentalidade dentro de nossas próprias casas. Não se "ajuda" as mulheres em trabalhos domésticos, mas "compartilham-se" responsabilidades iguais.

Todos nós, homens, somos sim perpetradores de violência de gênero até que nos eduquemos e a nossos filhos para o contrário.

E tendo em vista a formação que tivemos e da qual nos agarramos como um náufrago a uma boia, infelizmente há ainda um longo caminho até alcançarmos um mínimo de decência para com elas.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.