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Sob risco de ser largado por políticos e empresários, Temer afaga militares

Leonardo Sakamoto

07/03/2018 20h35

Temer participa das comemorações do Dia do Exército, em 2013. Foto: Jorge William / O Globo

Michel Temer continua indo aonde ninguém jamais esteve. Foi o primeiro presidente da República a ser denunciado por crimes, em pleno exercício do mandato, pela Procuradoria Geral da República. Insatisfeito com a façanha, foi o primeiro a ser denunciado duas vezes.

Em ambas as ocasiões perdoou dívidas públicas do agronegócio e de grandes empresas, liberou emendas bilionárias, distribuiu cargos, apoiou a aprovação de projetos que beneficiavam poucos em detrimento de muitos.

Até tentou mudar o conceito de trabalho escravo contemporâneo – o que dificultaria libertações de pessoas e deixaria determinados ruralistas e empresas da construção civil muito felizes.

Agora, é o primeiro presidente da República em exercício que tem seu sigilo bancário quebrado. E dependendo das investigações, que tentam comprovar as suspeitas de que ele recebeu propina para beneficiar empresas do setor portuário, ele pode ser denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro.

Para que ele se torne réu no Supremo Tribunal Federal, 342 deputados federais devem aceitar a denúncia. Daí, o STF analisaria a acusação e poderia afastá-lo por 180 dias da Presidência, período em que seria julgado. Perde o cargo se for condenado.

Dificilmente, Temer conseguiria disponibilizar mais recursos públicos para comprar os votos dos deputados. E, além disso, a partir de agora, fica difícil até aprovar determinadas pautas custosas sem que os eleitores percebam – e se lembrem.

Pelo contrário, ostentando popularidade menor do que injeção de benzetacil nas nádegas, desconfio que qualquer deputado federal que votasse hoje pelo afastamento de Temer ganharia votos com seu eleitorado. Qualquer eleitorado. Poderia até limpar a barra daqueles que duas vezes votaram para salvar seu pescoço da guilhotina da Lava Jato em troca de um mimo.

Além disso, partidos ameaçam o desembarque, ensaiam a ida para a oposição  ou tomam distância de Temer, que segue radioativo em popularidade. Pelo menos, enquanto aguarda o marketing da intervenção federal fazer efeito no Rio e no país.

Ao mesmo tempo, a outra perna de sustentação do atual governo, o mercado e o poder econômico, sabe que foi perdida a janela de oportunidade para aprovar a Reforma da Previdência devido à somatória da impopularidade do tema ao ano eleitoral.

E como a pauta "alternativa" apresentada pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles é uma caldeirada de projetos que já circulavam no Congresso Nacional, temperada com privatizações, mercado e corporações também sabem que qualquer semovente, Rodrigo Maia, inclusive, poderia tocar a pauta no pouco tempo que sobra antes da Copa do Mundo, do São João e das eleições gerais.

Diante de tudo isso, não é à toa que Temer trouxe as Forças Armadas para perto de si.

Antes de entregar o comando da intervenção federal na área de segurança do Rio de Janeiro a um general, ele já havia colocado militares em outros postos-chave, como lembrou reportagem de Gustavo Uribe, na Folha de S.Paulo.

Temos, agora, um general no Ministério da Defesa; um general comandando a Funai; outro, a Secretaria Nacional de Segurança Pública; mais um na chefia de gabinete da Casa Civil. Sem contar que ele já havia entregue o Gabinete de Segurança Institucional a um general, devolvendo ao órgão o controle sobre a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). E que sancionou a lei que transfere o julgamento de crimes cometidos por militares durante operações urbanas para a Justiça Militar.

Ninguém questiona a importância das Forças Armadas e o papel que elas cumprem em uma democracia. Mas os governos civis pós-1988 distanciaram os militares da gestão do país não apenas por traumas do passado, mas também por uma visão de democracia próxima do voto e distante dos quartéis.

Ao buscar neles fiadores, Temer corre o risco de jogar esse esforço no lixo. E ir junto com ele.

O general Hamilton Mourão, ao entrar na reserva, afirmou que é necessário que o Poder Judiciário "expurgue da vida pública" Michel Temer. Certamente, ele vocaliza muitos aposentados e da ativa.

Alguns, como Temer, podem pensar que, cercando-se de fardas, garantem proteção contra aqueles que querem vê-lo fora do governo.

O problema é que gente armada até os dentes pode significar uma fortaleza. Mas também uma masmorra.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.