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Stephen Hawking fará falta nestes tempos de negação do conhecimento

Leonardo Sakamoto

14/03/2018 12h17

Não tenho ídolos ou heróis – sempre achei uma bobagem esse tipo de coisa. Mas senti o baque pela morte "prematura" de Stephen Hawking.

Não exatamente por ele, claro. Afinal, do ponto de vista biológico, morrer aos 76 anos tendo convivido com esclerose lateral amiotrófica – doença degenerativa que rouba o controle dos movimentos e encurta a vida – é um recorde a se comemorar. Diagnosticado ainda jovem, recebeu a notícia de que morreria cedo, mas contrariando as previsões viveu apenas três anos menos que a expectativa de vida média de um britânico ao nascer. E usou essa tempo "extra" para exercer a genialidade.

Mas, de forma egoísta, por nós. Primeiro, o mundo está em um momento de desenvolvimento científico sem precedentes. Pessoas como ele – que não apenas empurraram a humanidade adiante, mas também traduzem o que isso significa à sociedade e gastam neurônios refletindo sobre os impactos da ação humana à própria existência – são imprescindíveis.

Ao mesmo tempo, há nuvens sombrias se avizinhando no horizonte, anunciando a chegada de mais tempestades de negação do conhecimento humano, de desprezo pelo aprendizado e pela ciência. Tormentas nas quais o preconceito é visto como sabedoria e o fundamentalismo religioso acusa e ataca tudo que vá de encontro a seus dogmas.

"As ações de Trump [de abandonar o Acordo Climático de Paris e de negação das mudanças climáticas] podem levar a Terra à beira do abismo e transformá-la em Vênus, com uma temperatura de 250ºC e chuva de ácido sulfúrico." Lembro que quando Hawking fez essa analogia, no ano passado, os comentários das notícias estavam cheios de declarações como "quem ele pensa que é para espalhar notícia falsa" e "mentira, porque Jesus vai voltar antes".

Hawking achava que a ideia de Deus não era suficiente para explicar o surgimento do universo. O que, não é desrespeitoso às religiões, mas apenas um ponto de vista científico. Nas redes sociais, hoje, ao mesmo tempo em que alguns prestam suas homenagens, outros dizem que ele foi contra a fé e teve o que mereceu. Se estivesse vivo, certamente faria piada sobre isso, afirmando algo como "Claro, vivi na sombra da morte a maior parte da minha vida por um castigo divino".

A acidez bem-humorada, a ironia e o sarcasmo com a qual lidava com tudo isso era um alento para estes tempos.

Antes de ser jornalista, quis ser astrônomo. Quando criança, passava horas em meio a cartas celestes, olhando para o alto, à noite. Muito cedo li Uma Breve História do Tempo, ao lado de livros de Carl Sagan e, claro, Isaac Asimov. Hoje, sou apenas um curioso no assunto, acompanhando profissionais, como o colega Salvador Nogueira, que garante nossa atualização diária sobre o firmamento e seus assuntos.

Disso levo a crença de que toda criança deveria ser ensinada a olhar com mais atenção para o céu em uma noite estrelada – não a fim de apenas buscar respostas, mas aprender a fazer as perguntas certas. E a olhar para o lado com mais carinho, afinal diante de nossa insignificância frente ao universo só a solidariedade nos resta.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.