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Passou da hora de Palocci delatar bancos e grandes empresas

Leonardo Sakamoto

12/04/2018 19h08

Antonio Palocci escoltado pela PF após ser preso em 2016. Foto: Rodolfo Buhrer / Reuters

Antônio Palocci, há muito tempo, teve o seu histórico político convertido em capivara criminal. E o principal responsável por isso foi ele mesmo.

Condenado a mais de 12 anos de prisão pelo juiz federal Sérgio Moro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, teve seu habeas corpus negado, nesta quinta (12), pelo Supremo Tribunal Federal. Ninguém de fato acredita que seria um problema permitir que ele recorresse em liberdade – afinal é apenas uma sombra do que já foi. Parece que a maioria do STF não quer é ter que comunicar a soltura do Palocci à sociedade, pois pensa que isso significaria colocar em descrédito a lei. E, além disso, qual seria o interesse da Lava Jato em soltá-lo? Nenhum.

(Erro dele, aliás, ter pedido a desfiliação do PT, em setembro do ano passado, e não buscado a do PSDB logo em seguida. Poderia estar solto agora, curtindo um chope no Pinguim em Ribeirão Preto…)

A manutenção de sua prisão não tem o objetivo de "amacia-lo" em nome de um delação para atingir Lula (ato que, aliás, é uma das mais deploráveis práticas da Lava Jato). Porque as declarações dadas pelo ex-ministro em seus depoimentos a Moro já foram fartamente usados contra o ex-presidente. Além disso, Lula já está preso e há munição de sobra contra ele na forma de outros processos que ainda serão julgados.

Mas se o que Palocci tem para contar não interessa ao Ministério Público Federal, o mesmo não se pode dizer da Polícia Federal, que adoraria fechar uma colaboração premiada com ele. Caso abra o bico para reduzir sua pena, bancos e grandes empresas vão passar anos dando explicações à sociedade.

A cadeia não é a primeira queda de Palocci, mas tem tudo para ser a última. Em março de 2006, renunciou ao cargo de ministro da Fazenda após o escândalo da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa, testemunha de acusação contra ele no caso da CPI dos Bingos. Depois, pediu demissão do cargo de ministro-chefe da Casa Civil, em junho de 2011, depois de denúncias de enriquecimento ilícito virem à tona. Foi preso em setembro de 2016.

Enquanto era ministro da Fazenda e seguia a cartilha do mercado, foi chamado de bastião da sensatez, defensor da moeda, guardião da estabilidade, entre outras groselhas proferidas pelos rentistas que encheram os buchos de grana durante o governo Lula. Para quem não se lembra, o capital – com ele tinha um relacionamento bom até demais – aumentou seu rendimento bem mais do que o trabalho naqueles anos.

Já naquela época, contudo, a parte da esquerda que não concordava com o modelo do qual Palocci era fiador, tecia longas críticas a ele e ao governo federal.

O ministro da Fazenda teve anos para buscar, por exemplo, o retorno da taxação de 15% sobre os dividendos recebidos de empresas por grandes acionistas – cobrança que havia sido derrubada pelo governo Fernando Henrique. Ou de implementar um Imposto de Renda realmente progressivo, com alíquotas de até 40% para quem ganha muito e isentar a maior parte da classe média. Ou uma forte redução de taxas do consumo, aumentando tributos sobre a riqueza e a transferência por herança. Ou seja, reduzir a desigualdade. Não fez nada disso.

Alertávamos sobre isso naquela época. Mas muitos dos mesmos analistas, políticos e empresários que, hoje, jogam pedra no ex-ministro-presidiário eram os mesmos que saíam em sua defesa, fazendo juras de amor eterno.

Palocci deve ser um dos maiores arquivos vivos das negociatas nacionais.

Os defensores da colaboração premiada apontam políticos como únicos chefes de quadrilha, o que está longe de ser verdade. Empresários moldaram o Estado de acordo com suas necessidades, comprando e vendendo quem fosse preciso, sangrando os cofres públicos, escrevendo e aprovando leis que os beneficiavam.

Por isso, Palocci deveria delatar os grandes empresários e os representantes do mercado, do agronegócio ao sistema financeiro, das indústrias ao comércio. Seria o empurrão que falta para duas importantes reformas: a Política (uma de fato, não o arremedo feito no ano passado) e a Tributária. Para chacoalhar de vez o país e dar o reset que a gente precisa.

Gostaria de falar agora com Palocci: Meu caro, você está preso. Está tendo que trocar o uísque por Maria-Louca. E não vai rolar mais delivery de pizza gourmet, apenas jumbo. Enquanto teus parceiros de negócios no setor privado aproveitarão praia, você ficará curtindo um banho de sol – e apenas por algumas horas por dia. Pense bem, eles valem a pena? Você aposta que vai ter tranquilidade financeira garantida por eles quando sair?

Mesmo que isso não deduza nada de sua pena, delatar trará o prazer de ser o responsável pelo maior rebosteio que esse país já viu.

Entrega tudo, Palocci.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.