Blog do Sakamoto

O Brasil machista nas redes tem orgulho dos ataques a mulheres na Copa

Leonardo Sakamoto

Russo tenta beijar repórter Julia Guimarães, da TV Globo. Foto: Reprodução

O burro não é aquele que desconhece algo, mas quem enxerga a sua violência e o seu preconceito como sabedoria. Reconhece-se o burro facilmente pois ele tenta destruir o conhecimento que ameaça jogar luz sobre a própria burrice. Afinal, como o mofo, ela cresce na escuridão.

Desde que começaram a pipocar as reações aos vídeos dos ataques de machistas brasileiros a mulheres de outros países, durante a Copa do Mundo, há uma contrarreação em listas de WhatsApp de jovens homens. Tive acesso a algumas dessas discussões. Atacam o que chamam de ''ditadura do politicamente correto'' que está tornando o mundo ''mais chato''. Os argumentos são os mesmos que sempre surgem diante de denúncias de machismo, racismo, homofobia – nomes corretos das tais ''brincadeiras''.

Outros defendem o comportamento na Rússia pelo fato de que os homens têm o direito, segundo eles, a irem atrás do que ''é seu por direito'' – nesse caso, as mulheres. Esse argumento é o mesmo usado por fóruns de ''incels'' (celibatários involuntários), homens frustrados que não conseguem ter relações e culpam as mulheres e outros homens por isso.

No geral, as mensagens trocadas chamam de hipocrisia as reclamações sobre as agressões de torcedores misóginos contra repórteres mulheres. Dizem que a reação é outra quando isso ocorre a repórteres homens. A tentativa de comparação é intelectualmente indigente, pois desconsidera tanto a natureza das abordagens até o fato de que nós, homens, não somos vítimas históricas de violência sexual, não sabemos o que é viver com medo de sermos assediados ou estuprados por estranhos, não temos que pensar na roupa em que vestimos antes de sair de casa e não precisamos tomar cuidado com o que falamos para desconhecidos com medo de que pode ser entendido como uma autorização para a violência.

Esses grupo de rapazes acreditam que estão sendo revolucionários e contestadores, quando, na verdade, agem de forma conservadora e reacionária. Acham que exalam o perfume da novidade, mas fedem a um mofo de séculos.

Parte desses jovens também costuma abraçar esses discursos como reação às tentativas de inclusão de grupos historicamente excluídos. Eles viram que a luta por direitos iguais por parte de suas colegas de classe ou de coletivos feministas em suas escolas está significando, para eles, uma perda de privilégios que hoje os homens têm. Nesse contexto, influenciadores digitais, formadores de opinião, guias religiosos e políticos oportunistas ajudam a fomentar, com seus discursos irresponsáveis, uma resposta negativa dos rapazes à luta das moças pelo direito básico a não sofrerem violência.

Estão insatisfeitos e se veem acuados diante do discurso de que muito do que lhes foi ensinado no que diz respeito aos seus direitos, deveres e limites agora precisa ser revisto para incorporar necessárias mudanças. Não aceitam críticas e dizem que é necessário reagir às mudanças. Têm orgulho de se dizerem reacionários.

Todos nós, homens, fomos criados no machismo, em maior ou menor grau, e temos um longo caminho para a desconstrução. Mas uns parecem que, não satisfeitos em negar o processo de libertação de si mesmos, querem também impedir o dos outros.

A burrice coletiva brasileira poderia ser enfrentada pela qualificação do debate público, mas isso tornou-se muito difícil em um ambiente ultrapolarizado como este em que vivemos.

Não se ouve o outro. Quando se ouve, não há boa vontade para interpretar o que ele ou ela diz. Quando se interpreta, distorce-se em nome da guerra digital.

Tudo isso é um ensaio. Até outubro, a burrice que se refugia na escuridão do WhatsApp vai causar muita dor de cabeça ainda.