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Leonardo Sakamoto

Futebol foi o sonho de liberdade de um jovem escravo em fazenda na Amazônia

Leonardo Sakamoto

25/06/2018 03h40

Menino em um campo de terra na cidade de Johanesburgo, África do Sul. Foto: Emilio Morenatti/AP

Cerqueiros perfuravam o chão, plantando mourões e passando arame por quilômetros a fio sob o sol forte da Amazônia paraense. O serviço era pesado: dependendo do relevo, a cabeça ardia por dias até que se completasse um quilômetro de cerca. O pequeno açude, turvo e sujo, servia para matar a sede, cozinhar e tomar banho. Um perigo, pois a pele ficava impregnada com o veneno borrifado para tratar o pasto. Dessa forma, a terra ia se dividindo – não entre os cerqueiros, que continuarão sonhando com o dia em que plantarão para si, mas em grandes pastos para os bois. Dentre os trabalhadores, olhos claros e pele queimada, Jonas, de 14 anos.

Analfabeto, me contou que morava em uma favela no município com a família adotiva e ia ao campo para ganhar dinheiro. Trabalhava desde os 12 para poder comprar suas roupas, calçados, fortificantes e remédios – até então, já tinha pego uma dengue e cinco malárias. Com o que ganhava no serviço, também pagava sorvetes e lanches para ele e seus amigos. E só. Segundo Jonas, a adolescência não era tão divertida assim: "brincadeira lá é muito pouca."

Seu padrasto era um dos "gatos" da fazenda. A mãe, uma profissional do sexo que engravidou de um viajante francês. Gato é como são chamados os contratadores de serviços, que arregimentam pessoas e fazem a ponte entre o empregador e os peões. Porém, isso não lhe garantiu nenhum tratamento especial: teve que descontar do salário a bota que usava para trabalhar. Perguntei para o padrasto se isso era justo. Ele, de pronto, me respondeu que não considerava a venda do calçado para o próprio filho errado e justificou: "como vou sustentar a minha mulher?"

O alojamento que Jonas dividia com os outros era feito de algumas toras fincadas no chão, um pouco de palha e uma lona cobrindo tudo. O sol transformava a casa improvisada em forno, encurtando, assim, a hora do almoço. Redes faziam o papel de camas, penduradas aqui e ali para embalar, entre um dia e outro de trabalho, os sonhos das pessoas.

O de Jonas, como vários outros rapazes da sua idade, era ser jogador de futebol.

Presença garantida nos times dos mais velhos, participava de jogos e campeonatos quando eles aconteciam. Queria ser profissional, mas apesar de gostar dos times do Rio de Janeiro e de São Paulo, preferia ficar lá mesmo no Pará – quem sabe, algum dia, vestindo as camisas do Paysandu ou do Remo. Por nunca ter ganho na vida um presente de aniversário, não esperava nada naquele ano. Mas disse que pediria uma bola – se pudesse.

Acompanhei várias operações do governo federal para resgatar trabalhadores da escravidão nestes últimos 17 anos, a maior parte delas na Amazônia. Também acompanhei ações para combater o trabalho infantil. Encontrei vários "Jonas", que também queriam ser jogadores de futebol. Talvez porque gostem do esporte como nós. Ou talvez porque viam nele a possibilidade de se verem livres daquela vida, com a bola carregando-os para bem longe, longe o bastante para nunca mais voltar.

Naquele dia em que ele estava sendo resgatado, compramos e demos uma bola para ele. Era só uma bola Ou seja, não significava nada. Mas significava tudo.

Infelizmente, vi crianças escravas fazendo tapetes na Ásia, ex-soldados infantis escravizados na África, meninas que foram forçadas ao sexo comercial na Europa nesses anos como repórter ou enquanto membro do conselho do Fundo da Nações Unidas contra Formas Contemporâneas de Escravidão. Praticamente todos os países do mundo usam trabalho escravo, ricos e pobres, incluindo aqueles que disputam esta Copa do Mundo de futebol masculino. Imaginem, portanto, a quantidade de crianças como Jonas que estão lá, neste momento, sem poder acompanhar os jogos porque se pararem de trabalhar, apanham ou morrem.

Gosto de contar essa história aqui, portanto alguém já deve tê-la lido. Pois se o futebol é capaz de ser a representação da liberdade nos sonhos de um jovem de 14 anos escravizado em uma fazenda de gado na Amazônia, o que ele seria capaz de fazer com um povo se fosse gerido e fomentado por gente decente e honesta? E se esse jovem não perde a capacidade de sonhar com um futebol alegre mesmo escravizado, que direito temos nós de ignorar que há milhares como ele lá fora, sozinhos, esperando que alguém apite o fim da mais longa partida de suas vidas?

Espero que o Brasil jogue bem na Copa.

Mas espero ainda mais que o futebol continue sendo a luz a guiar e manter crianças como ele para fora dessa quase-existência.

Em tempo: Se o governo federal não cortar a verba da fiscalização do trabalho e do fomento ao esporte para reduzir o preço do diesel e financiar a segurança pública, ajuda, claro.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.