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Impeachment de Crivella seria duro golpe no projeto de poder da Universal

Leonardo Sakamoto

12/07/2018 01h24

Foto: Eduardo Anizelli / Folhapress

A Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro deve decidir, nesta quinta (12), se abre processo de impeachment do prefeito Marcelo Crivella (PRB).

Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, ele está sendo acusado de oferecer vantagens a lideranças religiosas em reunião no Palácio da Cidade na última quarta (4). Prometeu ajuda, por exemplo, para encaminhar fieis a cirurgias (ou seja, em tese, furar a fila) e agilizar a isenção da cobrança de IPTU de templos. "Nós temos que aproveitar que Deus nos deu a oportunidade de estar na Prefeitura para esses processos andarem", disse o prefeito, segundo registro do jornal O Globo.

Crivella pode professar o credo que quiser. Mas a partir do momento em que se senta na cadeira de prefeito, deve governar para todos, sem preferências, conforme a Constituição Federal. Que em seu artigo 37o afirma que a administração pública "obedecerá os princípios da legalidade, moralidade, publicidade, eficiência e da impessoalidade". Entenda-se por este último que é proibido privilegiar grupos específicos.

Se governos caem ao privilegiar empresas, por que o tratamento seria diferente com igrejas?

O principal pecado do prefeito não é fazer um governo guiado pela fé. Mas não governar para todos, frustrando a fé nele depositada pelo restante da população.

Em fevereiro deste ano, um temporal atingiu o Rio de Janeiro, deixando mortos por deslizamentos de terra, ruas alagadas, casas destruídas, árvores caídas, vias interditadas, caos no transporte público e problemas no fornecimento de energia elétrica. Enquanto residências pobres das zonas Norte e Oeste afundavam na lama, Crivella estava na Europa a fim de visitar a Agência Espacial Europeia, entre outras instituições na Alemanha, Áustria e Suécia. O prefeito fugiu do Carnaval e do Sambódromo e a cidade ficou sem seu administrador.

Do conforto de hotéis que provavelmente não sofrem assaltos (o Rio também passou por uma crise na segurança pública no mesmo período), nem correm o risco de inundação, Crivella mandou um recadinho solidário à população via redes sociais no apogeu do caos: "Caros amigos, estou acompanhando a situação. O alerta de crise para a chuva intensa foi dada [sic] e a defesa civil foi colocada em prontidão para atuar prontamente em caso de acidentes graves".

O flagra da semana passada não foi a única vez em que Crivella privilegiou sua base religiosa em detrimento ao restante da população, tanto que o Ministério Público entrou com uma ação de improbidade contra ele, citando outros atos a serem investigados. Como eventos de igrejas em escolas públicas e um censo religioso na Guarda Civil. O pior é que ao colocar um credo à frente dos demais, o prefeito acaba por empoderar pessoas que cometem atos de violência contra outras, como aqueles que vitimizam adeptos de religiões de matriz africana.

Durante os últimos anos, um naco ultraconservador dos congressistas religiosos formou uma espécie de bancada fundamentalista, crescente e barulhenta, bloqueando projetos de leis que efetivam direitos relacionados à saúde da mulher, educação e questões de gênero – sem contar as tentativa de retrocesso nos direitos já vigentes.

Mas, se por um lado, há políticos fundamentalistas cristãos que vociferam contra a dignidade humana, há outros que atuam na defesa dos direitos das minorias, mesmo nos casos em que há conflito com as interpretações hegemônicas de sua própria religião. É importante fazer essa ressalva neste momento de polarização extrema e débil, em que pessoas são julgadas politicamente por sua fé.

Como já disse acima, a questão não é a fé. Mas a fé usada como instrumento de um projeto político.

O sábio de barba (neste caso, Jesus de Nazaré, não Karl Marx) disse, em Mateus 22:21: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". E não: "César é Deus e Deus é César".

O afastamento de Crivella seria um duro golpe no neopentecostalismo televisivo, que deu um salto, com sua vitória à Prefeitura em 2016, para a implementação de um projeto de poder mais amplo e de longo prazo, visando ao comando do país.

Mas talvez isso seja um sinal de que o Rio não tenha que morrer para poder ressuscitar em uma nova vida.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.