Blog do Sakamoto

Ao culpar caminhoneiros por PIB menor, governo Temer atira em si mesmo

Leonardo Sakamoto

Caminhoneiros fazem barricada na BR-116, perto de Embu (SP), durante a greve. Foto: Everaldo Silva/Futura Press/Folhapress

Ao elencar a greve dos caminhoneiros como um dos fatores que levou à redução da estimativa de crescimento da economia, em 2018, de 2,5% para 1,6%, o governo Michel Temer culpa a si mesmo.

Os dados são do Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas, divulgado pelo Ministério do Planejamento, nesta sexta (20). O Banco Central já havia citado a greve como uma das razões da redução de sua estimativa de crescimento do PIB, de 2,6% para 1,6%, em junho.

De acordo com pesquisa Datafolha, realizada por telefone, no dia 29 de maio, com margem de erro de três pontos, 77% dos entrevistados discordava da condução da negociação da greve por Temer.

Para 96%, o presidente demorou para negociar.

A arrogância do governo e sua incapacidade de entender a conjuntura fez com que agisse quando já era tarde demais. E, depois, escolhesse os ''representantes'' errados para negociar. E chamasse o Exército quando não era necessário. E deixasse crescer, sem muita contestação, uma minoria que usou a greve para defender um golpe militar.

O povo percebeu isso. E botou em sua conta.

Relembrar é viver: O governo federal recebeu avisos de entidades representativas de caminhoneiros de que sua batata estava assando diante da insatisfação dos profissionais autônomos com a variação do preço do diesel – que faz com que os custos aumentem ao longo de um frete. Preferiu ignorar.

Com o cheiro de pneu queimado trancando rodovia chegou ao Palácio do Planalto, o governo fez de conta que o problema não era grande. Se tivesse consultado qualquer um dos estagiários de redes sociais da Esplanada dos Ministérios, teria entendido que o movimento não era como o de outras greves, mas sim organizado de forma descentralizada pelo WhatsApp. E junho de 2013 mostrou que, quando um movimento canaliza a insatisfação popular e não têm lideranças reconhecidas amplamente, sabemos como as coisas começam, mas não como terminam.

Daí, quando a bomba estourou, Temer negociou com quem se apresentou como representante dos caminhoneiros, fechando um acordo que não atendia às reivindicações dos grevistas. E foi incapaz de atuar junto aos empresários de transporte envolvidos no locaute que correu paralelo e oportunista. As multas impostas não renderam o resultado esperado.

Ao não conseguir dialogar com manifestantes e grevistas, percebeu que perdeu o pouco controle que tinha. Chamou o Exército. Teve, com isso, que ouvir histórias de soldados e cabos que se negaram a cumprir ordens contra os caminhoneiros.

Por fim, não foi capaz de convencer os motoristas autônomos em greve a voltarem ao trabalho rapidamente nem com a redução do preço do diesel.

Para além da dificuldade de comunicação inerente a uma organização horizontal de greve via redes sociais, os caminhoneiros – vejam só – não confiaram em sua palavra, esperando para ver os resultados nas bombas de combustível.

Isso sem contar o fato que essa redução acabou como nova chicotada nas costas dos brasileiros mais pobres, que terão que enfrentar cortes de gastos públicos em áreas fundamentais, como o Sistema Único de Saúde. Tudo para não mexer na política de preços da Petrobras.

Por fim, o mais importante: Temer não conseguiu desarticular grupos de extrema direita que tentaram surfar no movimento, pedindo golpe militar. E, por conta disso, o chorume correu solta.

O governo não teve legitimidade para negociar, dialogar ou fazer valer as leis. Os caminhoneiros sabiam disso, as empresas de transporte sabiam disso, os grandes produtores rurais e as indústrias sabiam disso, a sociedade brasileira sabia disso. E, agora, a recuperação da economia sabe disso.

A solução para essa situação esdrúxula só virá com mudança de governo a partir de eleições democráticas, eleições que respeitem a vontade popular. Sem isso, iremos transferir para os próximos quatro ou oito anos o que vivemos nos dez dias caóticos de maio. Até a transição da faixa presidencial, serão mais seis meses de uma política morta-viva.

Por ter aprovado a Lei da Terceirização Ampla, o governo Temer parece ter se empolgado e achado que ela também permitiria jogar as responsabilidades pela queda na estimativa do crescimento no colo de terceiros. Não, ela serve para precarizar a saúde e a segurança dos trabalhadores e garantir corte de custos ao setor empresarial. Ou seja, a imperícia com os caminhoneiros foi dele mesmo.