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Quais presidenciáveis sobreviveriam a um debate na TV só sobre desemprego?

Leonardo Sakamoto

18/08/2018 11h37

Cabo Daciolo, no debate da RedeTv! Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Com um formato batido e limitado, com perguntas, respostas, réplicas e tréplicas curtíssimas, os debates eleitorais funcionam mais para entender como os candidatos reagem a situações de pressão do que compreender como pretendem implementar seus planos para o Brasil (considerando quem todos teriam um plano, claro) ou mesmo verificar o quão preparados estão para a tarefa.

Não que isso não tenha sua importância. O ponto alto do debate da RedeTV!, na noite desta sexta (17), por exemplo foram as respostas de Marina Silva para Jair Bolsonaro, quando ela explorou uma das fragilidades do candidato que mais preocupam sua campanha: a taxa de rejeição junto às mulheres, maior que entre os homens.

"Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência", disse Marina em sua réplica. "Nós somos mães, nós educamos os nossos filhos. A coisa que uma mãe mais quer é ver um filho sendo educado para ser um cidadão de bem. E você fica ensinando para os nossos jovens que têm de resolver as coisas na base do grito, Bolsonaro. Você é um deputado, você é pai de família. Você um dia desses pegou a mãozinha de uma criança e ensinou como é que se faz para atirar." Bolsonaro, que havia ironizado o fato dela ser evangélica ao criticar as propostas de plebiscito de Marina, ainda ouviu da candidata um desconcertante "em uma democracia, o Estado é laico".

Mostrar quem são os candidatos é importante, mas insistir em debates não-temáticos que repetem os mesmos assuntos em diferentes emissoras não é a melhor maneira para discutir o futuro do país nos próximos quatro anos. Os mediadores, colegas muito bem preparados, acabam se tornando bedéis de tempo e entregadores de direito de resposta, quando poderiam questionar os candidatos, não deixando que fujam das questões ou até retrucando com fatos.

A mediação não deveria assumir um papel de facilitador do diálogo apenas, mas de exigir respostas em nome da população. Houve quem se enrolou com uma pergunta apenas sobre ajuste fiscal. Imagine um programa inteiro sobre economia? O resultado seria bastante didático ao eleitor.

Foi salutar que tanto a TV Bandeirantes quanto a RedeTV! tenham optado por acordos para transmissão do conteúdo envolvendo plataformas digitais e portais, da mesma forma que será com o debate que reunirá UOL, SBT, Folha, por exemplo.

Mas apenas engatinhamos isso em comparação à possibilidade de formar pools de transmissão, com vários canais de TV, emissoras de rádio, sites, portais, páginas e contas em rede social, tudo em rede nacional. Isso teria um potencial muito maior que a propaganda eleitoral porque não é um ambiente de pressão e temperatura controlados por marqueteiros, nem conta com teleprompter para que os candidatos leiam o que alguém escreveu para eles.

Nessa transmissão em rede, cada programa poderia contar com um tema central, como "Geração de Emprego, Ajuste Fiscal e Reforma da Previdência". Outro poderia falar de políticas para "Educação e Saúde Públicas". Se o formato privilegiasse o aprofundamento de questões de interesse da população ao invés de permitir que os candidatos treinem frases lacradoras ou criem situações para a produção de memes pela sua equipe de produção digital, teríamos uma população melhor alertada sobre o conteúdo (ou a falta dele) de cada um.

O problema é que essa proposta certamente seria barrada por algumas candidaturas que sabem que o iogurte que vendem não é tão bom assim. A reunião em que se definem as regras de um debate pode ser algo bem desgastante para que quer fazer um bom debate. Representantes de políticos tendem a barrar novidades porque elas fogem da experiência que conhecem e controlam.

Há quem vote em candidatos sem conhecer seus projetos para áreas sensíveis. Preferem acreditar que ele ou ela fará tudo ao seu alcance para garantir qualidade de vida e ponto. Entregam, portanto, um cheque em branco. Ao fazer isso e aceitar que "linhas gerais" sejam apresentadas como programas de governo, atuam como fãs, não cidadãos. Um erro que, mais cedo ou mais tarde, cobra seu preço.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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