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Eleitor vota na mudança, mas deve eleger alguém que representa 1964 ou 2003

Leonardo Sakamoto

07/10/2018 11h38

Foto: Luis Moura/Estadão

O país vota hoje carregando uma enorme vontade de mudança. Mas a história do Brasil e do mundo já demonstrou que, no fundo do poço, há sempre um alçapão. Ou melhor dizendo, ao contrário do que alardeia o nobre Tiririca, pior do que está, ah, sim, fica. Podemos, por exemplo, enterrar a democracia no meio do caminho. Aplaudindo, efusivamente, o carrasco e os coveiros.

Mais de 12 milhões de desempregados, 27 milhões de trabalhadores subutilizados, 4,8 milhões que desistiram de procurar emprego porque sabem que não vão encontrar, segundo o IBGE. Mas também 64 mil mortes violentas, 60.018 estupros, 1.133 feminicídios, 4.539 mulheres vítimas de homicídios, 221.238 registros de lesão corporal dolosa em violência doméstica, 5.144 foram mortos em intervenções policiais, 367 policiais mortos, só em 2017, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O combate à corrupção? Se o Brasil estivesse crescendo a 7% ao ano, Michel Temer, mesmo que desfilasse com um terno feito de maminha da JBS, costurado pessoalmente por Joesley Batista, estaria virtualmente reeleito, com dezenas de deputados digladiando-se para tatuar seu nome com hena. Seria chamado de "mito" e estaríamos declamando seu livro de poemas – Anônima Intimidade – em saraus. O eleitor brasileiro não é conivente, muito menos burro, apenas pragmático. E assim foi diante do Mensalão em 2006. Portanto, como deixará o cargo como o presidente mais impopular da história, chegando a impressionantes 3% de avaliação de ótimo e bom (lembrando que, com a margem de erro, pode ter registrado apenas 1%), está condenado ao limbo.

O desejo de mudança destas eleições só é comparado ao do pleito de 2002, quando Lula encerrou um ciclo de oito anos de governo do PSDB, que estabilizou a moeda, mas sofreu desgaste com a economia e não conseguiu responder às demandas por qualidade de vida. A despeito dos vários pecados e crimes em que se envolveu, o PT conseguiu entregar redução da pobreza e fez crescer a classe média e o consumo – lembrança que Fernando Haddad tenta resgatar agora. Contudo, naquela eleição, as duas principais forças políticas prometiam manter as regras do jogo e o respeito aos direitos efetivados desde a redemocratização. Agora, uma delas promete implodir o sistema – o que, significa, inclusive, dinamitar os direitos dos mais pobres garantidos pelo sistema. Parte do povo, desalentado e com raiva, bate palmas acreditando que, das cinzas, ressurgirá algo melhor.

Vivemos ainda sob relativa estabilidade, com certas liberdades garantidas pelo Estado. Mas ao contrário do que querem fazer crer os chefes da República, essa costura é frágil. Tanto que, na atual crise política, o Exército organizou planos para intervir militarmente caso houvesse, na opinião de seus comandantes, quebra institucional, segundo relatos do próprio general Hamilton Mourão.

Passamos um primeiro turno inteiro sem que o primeiro colocado da campanha presidencial tenha explicado como pretende gerar empregos para além da falsa dicotomia que usou em sabatina a empresários em julho: "o trabalhador vai ter que decidir se quer menos direitos e emprego, ou todos os direitos e desemprego". Foi aplaudido, o que ajuda a explicar porque dezenas de patrões foram denunciados ao Ministério Público do Trabalho por coagirem seus empregados a votarem no homem. Já para a segurança pública, quer armar a população e apoiar a letalidade policial. Não há provas de que terceirizar a segurança do cidadão a ele mesmo irá reduzirá as estatísticas, ainda mais em uma sociedade violenta como a nossa.

Achar que a maior parte dos eleitores do ex-capitão compactua com as ideias da época do Brasil Colônia que ele ostenta sobre os direitos fundamentais, é um erro. Mas, desgostoso, toparia eleger qualquer um que prometa "mudar tudo que está aí" e "evitar que os sempre assumam o poder", trazendo ordem e, a partir daí, segurança e emprego.

Bolsonaro é o mais qualificado para gerar empregos e garantir segurança pública de forma sustentável? Ele não demonstra dominar proposta alguma para as áreas de economia, educação, saúde, ciência e tecnologia. Pior: as soluções que dá aos problemas do país não sobreviveriam a uma sessão de interrogatório do coronel Brilhante Ustra, o finado torturador-açougueiro da ditadura de quem é fã. Mas, como já disse aqui no início de sua campanha, sabe se comunicar.

Fala para uma parte dos radicais de extrema direita o que querem ouvir. Conversa da maneira que uma parte não radical dos eleitores de classe média baixa entende, mesmo que discorde – o que preenche medos, ansiedades e sensação de vazio com essa conexão (o conteúdo, nesse caso, é menos importante que a forma). Enquanto isso, os mais ricos entenderam que ele e sua equipe não irão bater de frente com a manutenção de seus privilégios.

O candidato se aproveitou muito bem do sentimento de mudança, criando uma narrativa que traz para si o frescor na novidade – mesmo que seja deputado federal há sete mandatos, tendo criado um clã político com seus filhos, juntado patrimônio com isso e abraçado o auxílio-moradia. E mesmo que as ideias que defenda sejam aquelas que passaram a maior parte do tempo no poder desde 1500. A atual situação de crise institucional e de perda de fé na política como solução pacífica dos conflitos nacionais abriu as portas para uma candidatura como a dele, que se coloca como um "salvador da pátria" a fim de ganhar espaço a fim de nos "tirar das trevas", passando por cima das regras e limites dados estabelecidos pela democracia.

O Datafolha apontou que 69% apoiam a democracia, o que foi comemorado por muita gente. Mas é miragem. Esse apoio pode ser flexibilizado em momentos de estresse econômico e social. O estudo "Medo da Violência e Autoritarismo no Brasil", produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com levantamento do próprio Datafolha, mostrou que, em uma escala de zero a dez, a sociedade brasileira marca 8,1 na propensão a endossar posições autoritárias. Sim, uma parcela das pessoas topa trocar a democracia pela falsa sensação de segurança e pela esperança (que talvez nem seja concretizada) de ter um emprego que garanta um mínimo de dignidade para si e para sua família. E sim, uma parcela antipetista da sociedade aceita trocar a democracia por manter o PT longe do poder.

A falta de resposta decente e compreensível dos candidatos à necessidade de gerar postos de trabalho e reduzir os homicídios pode jogar o Brasil não mãos de qualquer um. Alguém que não tem apreço pela democracia e pela liberdade e que, no final das contas, vai conseguir – sob a justificativa de nos afastar da ditadura venezuelana, nos empurrar para a sua própria.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.