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Sem debates, Brasil vai entregar "cheque em branco" a novo presidente

Leonardo Sakamoto

10/10/2018 22h33

Fotos: Rodolfo Buhrer/Reuters e Nelson Almeida/AFP

Jair Bolsonaro (58% dos votos válidos) largou à frente de Fernando Haddad (42%) na primeira pesquisa Datafolha após o início do segundo turno das eleições presidenciais, divulgada na noite desta quarta (10).

Algumas horas antes, a equipe médica que acompanha Bolsonaro desde o abominável atentado que sofreu em 6 de setembro, recomendou mais uma semana de repouso, dizendo que não estaria autorizado a viajar.

Com isso, ele está fora dos debates de TV na Band (12/10), Gazeta (14/10), RedeTV (15/10) e Folha, UOL, SBT (17/10). Sobraria Record (21/10) – canal cujo dono declarou apoio ao candidato – e Globo (26/10), último antes da votação e um canhão de audiência.

Por conta disso, uma hashtag que criticava o candidato devido à ausência tornou-se o principal trending topic mundial no Twitter na tarde desta quarta.

O atestado médico garantiu que ele continuasse em plena campanha, postando vídeos, memes e textos nas redes sociais e aplicativos de mensagens, concedendo entrevistas e participando de sabatinas, podendo escolher os veículos de comunicação e as condições, sem precisar ir a debates. Com isso, mantem-se ileso, criando um problema para Haddad – que precisa tirar votos dele.

Não é a primeira vez, nem será a última que o primeiro colocado nas pesquisas presidenciais falta a debates. Mas, por conta de sua condição médica, Bolsonaro conseguiu a justificativa perfeita para não precisar se desgastar em um embate no qual, do ponto de vista de sua estratégia, não teria nada a ganhar.

É uma pena porque o segundo turno é o momento para que os dois projetos de país sejam colocados, lado a lado, a fim de serem discutidos e conhecidos pelo eleitores. Para que ambos expliquem suas próprias propostas e apontem as falhas nas do adversário.

Bolsonaro e Haddad precisam detalhar como pretendem resolver o ajuste fiscal, a Reforma da Previdência, a geração de postos de trabalho, a Reforma Tributária, as políticas de segurança pública. Precisam dizer se vão continuar tocando ações básicas para a garantia da dignidade, como libertar trabalhadores escravizados, ou fecharão os olhos para isso por conta de acordos políticos em nome da governabilidade.

Sem isso, a população vai entregar um cheque em branco ao eleito baseado na maravilhosa realidade das propagandas de TV ou nas certezas absolutas dos vídeos de WhatsApp.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.