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Brasil teve amostra do que pode ser 2019 com censura em universidades

Leonardo Sakamoto

26/10/2018 19h03

O cerceamento de aulas, debates, atividades e manifestações baixado pela Justiça Eleitoral e pela polícia em dezenas de universidades públicas nos últimos dias assustam não apenas pelo que representam – censura – mas também pelo que apontam: atores públicos dispostos a reprimir a liberdade de expressão caso considerem a expressão equivocada.

É inegável que a probabilidade da vitória de Jair Bolsonaro à Presidência da República assanha não apenas uma parcela inconsequente de seus seguidores – que protagonizam casos de violência eleitoral – como foi o assassinato do mestre capoeirista e compositor, Moa do Catendê, em Salvador (BA). Mas também empodera a parcela de servidores públicos que concorda com suas ideias e, a partir da perspectiva dele no poder, sente-se mais livre para fazer valer uma interpretação das leis excludente e à garantia de direitos fundamentais.

O que vem acontecendo nessas instituições de ensino superior não é apenas retrato de um período eleitoral ultrapolarizado em que a democracia é espancada diariamente mas, insistente e tola, teima em ficar de pé. Mas uma amostra do que podemos enfrentar a partir de janeiro de 2019 caso as instituições, como o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria-Geral da República, que se manifestaram contra as ações, não consigam garantir o respeito aos direitos. Mas também se o candidato vencedor não sair de seu silêncio e condenar veementemente esse tipo de ação.

Contudo, o que temos hoje é um Jair Bolsonaro que confunde as liberdades de cátedra, de expressão, de reunião e de manifestação com "doutrinação comunista" que transformaria os pobres, passivos e indefesos estudantes em zumbis.

Se organizarmos uma lista com os principais problemas na educação, veremos roubo de merenda, escolas sem estrutura, universidades quebradas, salários de professores achatados, falta de investimento para formação e treinamento, falta de recursos pedagógicos, falta de transporte escolas e por aí vai. Mas a julgar pelo que foi discutido nessas eleições, o grande mal da educação brasileira tem outro nome: "doutrinação político-partidária".

Diante das denúncias de arbitrariedade por conta de fiscais eleitorais e agentes de segurança nas universidades, muitos foram os eleitores ultraconservadores que defenderam, nas redes sociais, que era necessário "limpar" as instituições desses jovens vermelhos. Usaram, dessa forma, a mesma ideia de Bolsonaro no fatídico discurso, deste domingo (21), em que prometeu "uma limpeza nunca vista na história" após eleito. "Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil", afirmou. "Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria."

Fico pensando em que mundo essa turma vive para achar que as escolas e universidades brasileiras – "em todos os níveis, do ensino básico ao superior" – sofrem de "contaminação político-ideológica" comandada por "um exército organizado de militantes travestidos de professores", como registram em documentos. A doutrinação na educação é um bicho pequeno, mas o Escola Sem Partido [de Esquerda] joga um forte holofote sobre ele e pede que olhemos apenas a sombra – monstruosa, assustadora – projetada na parede.

Aliás, se existesse doutrinação esquerdista, ela teria dado muito, mas muito errado por aqui. Basta botar a cabeça para o lado de fora de sua bolha.

Para piorar, o principal evangelista dessa "deformação dos jovens universitários" seria ninguém mais, ninguém menos do que Paulo Freire. Justo ele, pacifista convicto e obsessivo pela ideia de que as pessoas deveriam pensar livremente. Coisa de quem nunca leu uma linha sequer do educador brasileiro mais respeitado no mundo. Ou, se leu, não entendeu nada. O baixo nível do debate, aliás, é o mais triste. Com tanta coisa importante para discutir, com tanta ação urgente para tomar, nos pegamos imobilizados numa falsa questão, sustentada por argumentos frágeis.

Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação. Essa confusão, claro, é sistematicamente utilizada para conter os pequenos avanços civilizatórios da área nos últimos anos.

Por fim, gostaria de entender a cabeça de quem passa a vida inteira reclamando que jovens fogem da escola, não dão a devida importância à educação e não se importam com o futuro do país e, agora, tacha de "baderneiros" os estudantes que realizam atos, aulas, debates, reuniões, manifestações sobre o momento político que o país está vivendo, não se furtando a lutar contra aquilo que toda sociedade civilizada deveria ter como um de seus principais objetivos: evitar que formas autoritárias de governos se estabeleçam.

Uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que possam colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode significar libertar ou enquadrar. Se seu filho ou filha estava na universidade discutindo política ou protestando em nome do próprio futuro, parabéns. Você deu a eles uma boa educação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.