Blog do Sakamoto

Bolsonaro fala em “pacificar Brasil”, mas não abandona clima de guerra

Leonardo Sakamoto

Jair Bolsonaro perdeu a chance de tentar arrefecer os ânimos do país em seus discursos após ser confirmado como o 38o presidente da República na noite deste domingo (28). Após o período eleitoral mais violento desde a redemocratização, era de se esperar que ele sinalizasse ao lado derrotado e seus eleitores com o objetivo de reduzir a tensão e fizesse um pedido a todos os seus apoiadores e simpatizantes para que buscassem o diálogo como saída não apenas para a discordância política como também para qualquer diferença nos próximos quatro anos.

Contudo, preferiu abusar de termos militares em seu primeiro pronunciamento, via live do Facebook, falando de marcha do eleitorado, de exército de apoiadores, que ''missão não se escolhe nem se discute, se cumpre''. Depois, em um segundo discurso, mais suave, agora na TV, questionado sobre o que fazer com um país que se encontra dividido, afirmou que trabalharia para ''pacificar o Brasil'' – o que repetiu, em outra live, dizendo: ''seguirei o exemplo do patrono do Exército brasileiro, Duque de Caxias, e irei pacificar o Brasil. Não será mais 'este contra aquele'''.

Não deu mais detalhes do que seria essa ''pacificação''. O que nos resta torcer para que não seja como na Guerra do Paraguai, que teve em Duque de Caxias um de seus principais líderes, quando matamos e morremos às dezenas de milhares, há 150 anos.

Bem faria ao invés de vender nossa imagem como a de uma teocracia militarista (antes do pronunciamento na TV, ele e aliados fizeram uma oração de mãos dadas – talvez, um culto de corpo presente para o Estado laico), Bolsonaro tivesse feito um aceno consistente em nome da distensão.

O fim das eleições já demandaria um exaustivo trabalho de redução de animosidades e de sinalização ao lado derrotado, se o eleito colocasse isso como primeira medida em seu discurso da vitória. O problema é que, baseado no que disse até agora, Bolsonaro talvez aposte na manutenção de um inimigo (o comunismo? o socialismo? os ladrões de nióbio?) para manter sua influência sobre uma parte do eleitorado.

Vale lembrar que, no domingo passado (21), ele prometeu ''uma limpeza nunca vista na história desse Brasil'' após eleito. ''Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil'', afirmou. ''Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria.'' Em suma, varrer, banir, prender ou exilar adversários.

E, nas últimas semanas de campanha, não demonstrou indignação à altura das perseguições, agressões e até assassinatos cometidos por alguns indivíduos de sua militância por razões políticas, como aponta a polícia. Ele, mais do que ninguém, sentiu na pele o significado da loucura política e do ódio no atentado que sofreu. E como é considerado exemplo e liderança para muita gente, prometendo, repetidas vezes, que iria pacificar o país, poderia ter mudado o discurso, servindo de exemplo para que seus seguidores optassem pelo diálogo ao invés da violência.

A sinalização de Bolsonaro deveria ser urgente porque indivíduos e grupos radicais, sentindo-se empoderados pela mudança de governo, já estão se sentindo à vontade de ir às ruas para punir aqueles que veem como opositores do governo, como jornalistas. Há relatos de que profissionais de imprensa foram agredidos e ameaçados em várias cidades, como na capital paulista, nos festejos de seus apoiadores por sua vitória na noite deste domingo.

Bolsonaro não se tornou presidente apenas dos 55% de votos válidos, mas dos outros 45% que escolheram Fernando Haddad, sem contar os votos brancos e nulos e aqueles que, cansados da política, abstiveram-se. Não adianta se dizer defensor da Constituição e de liberdades. Tampouco afirmar que ''não existem brasileiros do Sul ou do Norte'', que ''somos todos um só país''. Precisa, a partir de hoje, agir como futuro chefe de Estado e não como alguém em guerra com parte de seu próprio povo.