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Resistência a Bolsonaro nas ruas e redes será mais dura que no Congresso

Leonardo Sakamoto

29/10/2018 19h25

A eleição de um novo governo também significa o estabelecimento de uma nova oposição. A campanha de segundo turno desta eleição presidencial serviu para reunir grupos e indivíduos contrários a Jair Bolsonaro (PSL) em uma ação que, indo muito além do PT e dos movimentos sociais tradicionais, pode apontar caminhos de como será a resistência nas ruas e redes, que promete ser mais aguerrida que aquela a ser realizada no Congresso Nacional.

Jair Bolsonaro foi eleito com o apoio de 39% do eleitorado brasileiro – o que representa 55% dos votos válidos. Brancos e nulos ficaram em 9,6%, acima da média histórica dos 6,5% . A abstenção foi 21,3%, também dentro da média das últimas eleições. Os 57,8 milhões de votos que recebeu são significativos e lhe dão legitimidade, contudo o resultado ficou longe de suas expectativas e da vitória que seus aliados propagavam – que seria maior até dos que os 61% dos votos válidos que Lula obteve em 2002.

Ao mesmo tempo, Fernando Haddad teve 32% dos votos totais (45% dos válidos) ou 47,9 milhões de votos. O eleitorado deu um recado: Bolsonaro será presidente, mas não com o respaldo avassalador. O Brasil segue dividido e o eleito terá que se esforçar para reduzir as tensões e deixar claro que não governa apenas para os que seguem sua cartilha, mas é capaz de garantir os direitos mais básicos a todos – inclusive aqueles que dele discordam profundamente.

Nas últimas semanas, as pesquisas de intenção de voto detectaram uma queda na diferença entre ele e seu oponente após a denúncia da compra de envio de milhões de mensagens de WhatsApp por parte de empresários que apoiavam sua campanha (e a consequente redução na quantidade de disparos em massa de mensagens pró-Bolsonaro após a plataforma suspender contas das consultorias envolvidas). E o impacto negativo de declarações antidemocráticas do candidato (como aquelas que falavam em banir e varrer adversários ou que chamavam políticas de ação afirmativa de "coitadismo") e de seu filho (que disse que o STF poderia ser fechado apenas com um cabo e um soldado).

Ou seja, o eleitor escolheu Bolsonaro, mas deu força à oposição. Primeiro, a oposição parlamentar já estava eleita em 7 de outubro, tendo o PT com a maior bancada (57 deputados federais) por enquanto – o PSL, a segunda maior (com 52), deve roubar essa posição com a chegada de parlamentares vindos de partidos cuja vida foi dificultada pela cláusula de barreira. Caso PT, PSB, PDT, PSOL e PC do B consigam compor com outros partidos do centro e da direita liberal em pautas relacionadas a direitos fundamentais, o grupo pode bloquear mudanças constitucionais, que dependem de 308 votos na Câmara dos Deputados e 54 no Senado Federal.

Haddad não tem mandato parlamentar, portanto, espaço de tribuna. Ciro Gomes, que ficou em terceiro lugar na disputa e preferiu se abster a apoiar uma tentativa de frente democrática também. Já o ex-governador e senador eleito pela Bahia, Jaques Wagner deve ser tornar um dos principais líderes da oposição no parlamento. Além da interlocução com outros grupos, o PT sai da disputa com seus quatro governadores no Nordeste, além de uma expressiva bancada regional. Wagner havia sido cotado para disputar a Presidência na vaga que acabou sendo de Haddad.

Mas, a campanha de segundo turno, encerrada em 28 de outubro, também abriu caminho para a formação de uma oposição na sociedade. Na semana anterior ao pleito, houve intensa mobilização de uma militância que não se confunde com a petista. Parte significativa, aliás, deplorava o PT, mas tinha (e tem) receio do que pode ocorrer com a democracia e teme pela própria dignidade e, em alguns casos de minorias vítimas de violência, por sua vida. Indivíduos, coletivos e grupos foram às redes e às ruas para tentar reverter as intenções de voto. Não conseguiram o suficiente para mudar a eleição, mas o bastante para passar um recado. Como consequência fortaleceram-se, criando as bases para uma resistência social ao governo que começa em janeiro de 2019.

Não se sabe ainda como serão organizados os diferentes coletivos e movimentos no intuito de monitorar, fiscalizar e denunciar Bolsonaro. Irão, certamente, ocupar as ruas e os espaços públicos, como as universidades (escolhidas para alvo da censura e do macarthismo à brasileira), como focos de resistência. E também as redes sociais e aplicativos de mensagens – durante a campanha de segundo turno, a atuação de forma orgânica de indivíduos e grupos antibolsonaristas no Twitter, Facebook e WhatsApp cresceu de forma relevante segundo os pesquisadores dessa área.

E certamente nem todos os atores aceitarão que o PT ocupe naturalmente o espaço de liderança como antes. No que pese os méritos do ex-prefeito de São Paulo, os 47 milhões de votos que Haddad recebeu devem-se à transferência de Lula – o principal líder popular do país, que cumpre pena em Curitiba – no primeiro turno. E, no segundo, em grande parte ao voto útil antibolsonaro.

Ignorar isso é acreditar que o novo presidente teve 57,8 milhões de votos por conta de suas propostas e promessas e não pelo voto antipetista ou antissistêmico.

Além disso, ter voto não significa automaticamente ser liderança – Aécio Neves e Marina Silva tiveram e não foram.

As lideranças de uma frente de oposição a Bolsonaro na sociedade ainda estão em aberto. Por mais que Lula aponte o ex-candidato do PT para a vaga, este é um terreno que o presidente de honra do partido não tem tanta influência quanto gostaria, ainda mais porque estamos falando de movimentos, muitos dos quais de jovens, que não funcionam na mesma lógica que sindicatos. E Ciro deve tentar a oposição pela sociedade, mas também não tem grande influência sobre esses grupos – ainda mais depois de ter preferido a neutralidade. Terá que investir em visibilidade via imprensa e redes sociais – sua campanha teve bom desempenho na internet – para chamar a atenção da população não organizada.

Guilherme Boulos, que também disputou a eleição presidencial pelo PSOL, já começa a convocar manifestações do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), do qual é coordenador, e da Frente Povo sem Medo, como demonstração de resistência. "Entre a prisão e o exílio, nós escolhemos as ruas", afirmou neste domingo. Vale lembrar que Boulos consegue colocar gente na rua (a multidão em torno do sindicato em São Bernardo do Campo no qual Lula esperou a prisão foi levada por ele). Não à toa que Bolsonaro repetiu várias vezes a intenção de criminalizar o MTST.

Tudo isso pode ser uma boa oportunidade para o campo democrático finalmente reinventar-se, voltando a ouvir suas bases e, com elas, reconstruir um projeto de país e não apenas recauchutando o mesmo, que vem sofrendo leves alterações ao longo do tempo – 2002, 2006, 2010, 2014, 2018.

Além disso, há um descompasso entre o desejo da base social, composta por movimentos e organizações sociais, coletivos, sindicatos, e a vontade de parte das cúpulas partidárias. De um lado, a necessidade da base em construir um projeto que passe pela efetivação de políticas públicas de qualidade, garanta a proteção aos direitos humanos e mude a representatividade e a forma de se fazer política – o que inclui a continuidade do combate à corrupção.

De outro, o desejo de retomar o poder diante de um cenário econômico que não permite mais a conciliação entre capital e trabalho. Um grupo que não abandona o discurso do desenvolvimento a qualquer preço – que levou a aberrações como Belo Monte, obra envolvida em desmatamento ilegal, violência contra populações indígenas e ribeirinhas, trabalho escravo e tráfico de pessoas e, claro, corrupção. Não entende muito bem quem é o novo eleitor de classe média baixa que quer representar, que toma Lula como exemplo não pela política, mas por ter vencido na vida. Segue prepotente, acreditando que entende como funciona a dinâmica de manifestações sociais, culpando a mídia por todos os seus problemas, mesmo quando eles próprios contribuíram por colocar mais combustível onde já pegava fogo. E em nome da governabilidade, palavra pichada com sangue no muro do inferno, mantém conversas com semoventes impronunciáveis.

O debate público caminhou em baixa qualidade nestas eleições, conquistando a proeza de dar espaço aos que defendem que "fazer política é escroto". Ou seja, ao invés de tentarmos melhorar a política, reinventar a democracia, a saída foi negá-la e tudo o que ela representa, entregando-se a saídas rápidas, vazias e autoritárias porque elas eram "sinceras". Daí, surgiu quem estufou o peito e, com orgulho, disse que não era político e não fazia política, apesar de ter sido político por décadas.

Bolsonaro aproveitou-se durante anos de sua posição marginal ao centro do poder para tacar pedras na vidraça de governos, do PSDB, passando pelo PT ao MDB. Agora, eleito, se torna a própria vidraça e reunirá insatisfeitos por diferentes razões. Em breve, podemos descobrir que ele precisa quebrar algo o tempo todo, gerando uma constante instabilidade que provoca um medo contínuo. E, dessa forma, manter o controle.

Qualquer mudança consistente, diante desse quadro, depende da entrada de novos atores no jogo, à esquerda e à direita, que aceitem construir uma nova política partidária para responder com democracia de alta intensidade aos rompantes autoritários. Isso leva tempo, humildade e sabedoria de quem já está no jogo há anos e força, energia e vontade dos mais jovens para a construção de alternativas inclusivas, baseadas na pluralidade étnica e de gênero. O risco de deixar de reconstruir uma narrativa que conquiste pela esperança e não pela negação é que o vazio seja ocupado pelo discurso do medo. Um lugar escuro e frio, de onde dificilmente se escapa.

Da última vez, levamos 21 anos para fugir dele.

Post atualizado às 10h do dia 30/11/2018 para inclusão de informações.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.