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Despreparo da equipe de Bolsonaro desponta como maior aliado da oposição

Leonardo Sakamoto

31/10/2018 03h51

Foto : Renato Araújo/Agência Brasil

A transição do governo Bolsonaro começou com desmentidos e desentendimentos entre a equipe. Era de se esperar que pecariam pelo amadorismo, mas há um claro exagero.

O presidente eleito avisou que fundiria os ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Indústria, Comércio Exterior e Serviços durante a campanha. Após ser visitado por empresários, no dia 24, voltou atrás. "Se esse é o interesse deles, para o bem do Brasil, vamos atendê-los. Vamos manter o Ministério da Indústria e do Comércio, sem problema nenhum." Nesta terça (30), contudo, sua equipe informou que a fusão vai acontecer. "Nós vamos salvar a indústria brasileira apesar dos industriais brasileiros", disse Paulo Guedes, que deve ser o czar desse novo ministério da Economia. Patos amarelos de várias plumagens estão fazendo quacks de desaprovação.

Os desconfortos causados por Guedes não pararam por aí. Ao afirmar que o Mercosul não seria prioridade, assustou nossos vizinhos e os exportadores brasileiros por conta da extensa pauta comercial que temos com o bloco. E disse isso de forma grosseira a uma jornalista argentina, com orgulho de copiar o chefe: "o Mercosul não é prioridade. Não, não é prioridade. Tá certo? É isso que você quer ouvir? Queria ouvir isso? Você tá vendo que tem um estilo que combina com o do presidente, né? Porque a gente fala a verdade, a gente não tá preocupado em te agradar".

Isso sem contar que Guedes defende a independência do Banco Central, mas segue discutindo como deve ser o câmbio e a venda de reservas – que são atribuições de quem? Do Banco Central. Independência? Ahã, Claudia, senta lá.

A anexação do ministério do Meio Ambiente pelo ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento havia sido informada na campanha. Após críticas dentro e fora do Brasil, que alertaram para o risco de grande rebosteio – aumento no desmatamento, crescimento da violência no campo, descumprimento de compromissos contra mudanças climáticas – a equipe de Bolsonaro disse que iriam repensar. O próprio presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antônio Nabhan Garcia, consultor do presidente eleito, informou que "se for melhor para o Brasil que haja o Ministério da Agricultura separado do Meio Ambiente, depois de eleito todos vão sentar e o presidente vai ouvir toda a sociedade".

Se Bolsonaro ouviu toda a sociedade, foi rápido e discreto, talvez mandando milhões de mensagens de WhatsApp sem que a imprensa soubesse. Porque, também nesta terça, sua equipe informou que a Agricultura vai mesmo comer o Meio Ambiente – com direito a duplo sentido com twist carpado.

(Boa sorte para nossa economia que vai sofrer restrições comerciais por conta disso. Barreiras semelhantes devem ser erguidas, aliás, na questão do trabalho escravo, com as promessas do novo governo de flexibilizar a fiscalização do trabalho e a punição a esse crime.)

Isso sem falar no barata-voa sobre a Reforma da Previdência. Bolsonaro quer aprovar alguma medida ainda neste ano, aproveitando o pacote de Michel Temer – aquele que vinha sendo rechaçado pela maioria da população.

Seu futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni chamou a proposta que tramita no Congresso Nacional, enviada pelo governo Michel Temer, de "remendo" e defendeu que outra seja apresentada em 2019. Levou uma chicotada de Paulo Guedes, futuro czar da área econômica: "É um político falando de economia. É a mesma coisa do que eu sair falando de política. Não dá certo, né?".

(Reparem no "é a mesma coisa do que eu sair falando de política". Essa foi a vingancinha que Guedes manteve guardada desde a polêmica sobre sua proposta de recriação de um imposto semelhante à CPMF, quando levou uma enquadrada de Bolsonaro. Segundo entrevista que deu ao jornal O Globo, do dia 21 de setembro, "Jair Bolsonaro me convenceu que eu não entendo nada de política".)

Porém, o deputado federal Major Olímpio, senador eleito por São Paulo pelo PSL de Bolsonaro, já avisou que é contra a proposta de Temer e que votará contra se ela for analisada este ano. Em outras palavras, representantes de policiais, militares e outras corporações também devem com ele.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, por sua vez, disse que a aprovação está distante da realidade e mesmo deputados e senadores da base de Temer são refratários a aprovar o texto. Afinal, não acham justo Bolsonaro terceirizar o ônus dessa bucha de canhão para essa legislatura – lembrando que o Congresso teve a maior taxa de renovação dos últimos tempos. Lembram também que há uma intervenção federal na área de segurança no Rio e isso impede de que uma proposta de emenda constitucional seja aprovada sem uma engenharia complexa.

Já a oposição ri alto quando ouve sobre a possibilidade de votação em 2018.

Após dois dias das urnas terem soltado a fumaça branca sinalizando que tínhamos novo presidente, Bolsonaro e equipe bateram muita cabeça e voltaram atrás, como faziam durante a campanha. Mantido esse ritmo, o maior aliado da oposição vai ser o despreparo político e o ego de membros de sua equipe. Seria engraçado se não fosse preocupante, pois quando um governo peca pelo amadorismo, quem perde não é só ele, mas toda a população.

Bolsonaro gosta de repetir uma passagem do Evangelho de João 8:32: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". Particularmente, acho que ele deveria deixar a bíblia aberta em Eclesiastes 1:2, na próxima reunião de equipe: "Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade".

Em tempo: vai ser didático para os brasileiros ver o juiz federal Sérgio Moro assumir o ministério da Justiça tendo como chefe Jair Bolsonaro. Vamos ver se ele aceita.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.