Blog do Sakamoto

Com forte viés ideológico, governo Bolsonaro tenta se vender como neutro

Leonardo Sakamoto

Jair Bolsonaro repetidas vezes atacou a ''ideologia'' como um dos principais males do país.

''A questão ideológica é tão, ou mais grave, que a corrupção no Brasil. São dois males a ser combatidos'', postou em redes sociais durante a campanha. “Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos”, foi um dos exemplos mais recentes.

Poucas palavras têm tantos significados e são usadas com tal frequência na política, na sociologia, na filosofia, no boteco quanto ''ideologia''. O termo tem dois sentidos gerais, segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio. O primeiro, ideologia como um conjunto de ideias e de valores que têm como função orientar comportamentos políticos coletivos. O segundo, tem origem nas reflexões do sábio de barba (neste caso, Karl Marx, não Jesus de Nazaré), ou seja, ideologia como a falsa consciência das relações de domínio entre classes sociais. Vamos nos ater ao primeiro uso, que é o mais comum, até porque o segundo representaria que Bolsonaro estaria fazendo um autocrítica.

Atribui-se ao que é ''ideológico'' a presença de dogmas, doutrinas e paixões que se oporiam ao que é ''pragmático'' e, portanto, seria livre de tudo isso. Os diferentes atores envolvidos em disputas políticas carregam sua ideologia, mas parte deles quer fazer crer que não, que seriam guiados pelo ''bom senso''. Ou seja, ideológico é sempre o outro.

Porém, o ''bom senso'' não é neutro. Pelo contrário, é construído. Uma ação ou um comportamento visto como naturais ou lógicos são, na verdade, os resultantes de uma série de disputas simbólicas no seio de uma sociedade. Em alguns casos, passado o tempo, a lembrança dessas batalhas se esvai ficando apenas o seu resultado: uma ideia largamente aceita e pouco questionada.

Isso não é imutável, claro. O bom senso já justificou queimar hereges na fogueira, a escravidão de índios e negros, o impedimento ao voto feminino e a proibição de casais do mesmo sexo de terem os mesmos direitos dos héteros.

Atores econômicos são craques em se afirmarem neutros quando, na verdade, não são, por exemplo. Em dizer que é lógico afirmar que o trabalhador tem que decidir se quer menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego, que é racional impor limites para o crescimento de gastos públicos em setores básicos como educação e saúde ou que é natural equiparar a idade mínima de aposentadoria de trabalhadores rurais pobres a trabalhadores urbanos.

Nossa ideologia vai conosco a toda parte. Somos guiados por conjuntos de ideias e adotamos diferentes formas de interpretar os fatos do mundo. O importante, no final, é saber se a nossa base ideológica é includente ou excludente. Ou seja: se queremos que mais seres humanos aproveitem da mesma dignidade que desejamos para nós mesmos ou não.

A negação disso no Brasil de 2018 tem provocado um cenário surreal. Professores, artistas e jornalistas que se identificam com ideias progressistas são tachados de ''ideológicos'' e, por conta disso, têm seu emprego ameaçado, além de serem perseguidos e espancados, como se estivessem espalhando alguma doença socialmente transmissível, em um macarthismo à brasileira. E juízes, empresários, militares, policiais e religiosos que se identificam com ideias conservadores são considerados ''neutros'' ou ''pragmáticos'', mesmo que abracem publicamente uma ideologia e um partido político.

O inimigo do novo governo e seus apoiadores, portanto, não é a existência de ideologia, que eles abraçam com gosto. Mas qualquer ideologia que não seja a que eles defendam. Ou seja, um dos principais males do país continuará sendo a ultrapolarização, que transforma o ódio e a intolerância em bom senso.