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Educação e Relações Exteriores serão ministérios com a cara de Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

23/11/2018 21h50

Foto: Miguel Schincariol/AFP

O presidente eleito Jair Bolsonaro está decidindo o seu programa de governo agora que ganhou a eleição montando seu ministério. Após idas e vindas, involuntárias ou propositais, alguns nomes escolhidos geraram mais debate público que outros, como os dos futuros ministros da Educação, o professor Ricardo Vélez Rodríguez, e das Relações Exteriores, o diplomata Ernesto Araújo.

Por conta disso, os dois temas estiveram em destaque na mídia nos últimos dias. Seja por causa de textos polêmicos publicados por eles em blogs e artigos, seja pela insanidade coletiva das redes sociais, temos a conviccção que essas áreas vão ganhar novas prioridades.

Diante disso, sugiro um breve teste:

1) Qual o principal problema na Educação no Brasil?

a) Formação precária dos docentes e alunos que saem do Ensino Médio analfabetos funcionais
b) Roubo, ausência ou baixa qualidade de merenda escolar
c) Baixos salários de professores e falta de estrutura nas escolas
d) Teto orçamentário restringindo investimentos na área
e) Doutrinação gayzista-globalista-político-partidária por militantes comunistas travestidos de professores

2) Qual o principal desafio do Brasil nas Relações Exteriores?

a) Ampliar acordos multilaterais e bilaterais para fomentar crescimento em nossa economia
b) Garantir uma relação pacífica com a maior quantidade possível de nações
c) Firmar-se como principal liderança em energia limpa e políticas contra mudanças climáticas
d) Concretizar uma integração regional na América do Sul profunda e condizente com os interesses brasileiros, nos âmbitos comercial, regulatório, migratório, e de infraestrutura
e) Promover o America First e Make America Great Again

Eu poderia dizer que se você escolheu a letra "e" em qualquer uma das questões, está precisando conhecer um pouco mais a realidade de seu país para além de seus grupos de WhatsApp. Mas se você escolheu a letra "e" é porque, provavelmente, acha que seu país pensa como seus grupos de WhatsApp.

Jair Bolsonaro, repetidas vezes, atacou a "ideologia" como um dos principais males do Brasil. Segundo ele, durante a campanha eleitoral, "a questão ideológica é tão, ou mais grave, que a corrupção. São dois males a ser combatidos".

Agora, escolhe profissionais que prometem erguer bandeiras ideológicas que ele próprio defendeu na campanha. O que nos leva a crer que o problema não é a ideologia, mas a ideologia do outro. Se assim for, o macarthismo à brasileira, cintilando com as purpurinas da hiprocrisia, não vai ser algo bonito de se ver desfilar.

Um governo que prioriza o combate ao "comunismo" como uma das principais chagas do país acaba deixando de lado os problemas reais que precisam de solução urgente. Mas combater fantasmas é algo muito mais fácil do que problemas reais. Com a vantagem que você pode atribuir a fantasmas tudo o que quiser, transformando algo insignificante em um inimigo terrível. Animando, assim, as turmas do fundamentalismo religioso e da extrema direita, aliados de primeira hora, cujo engajamento é peça-chave para um governo que pretende manter a campanha eleitoral acesa até o seu último dia.

Criar monstros para entreter a massa ultrapolarizada é coisa que, há tempos, sabemos fazer muito bem por aqui. O que me leva a uma terceira questão:

3) Qual o maior problema na Saúde do país?

a) Estrutura pública de atendimento insuficiente ou inexistente, como hospitais, postos de saúde, leitos, ambulâncias, remédios
b) Planos de saúde privados que entregam cada vez menos cobrando cada vez mais
c) Falta de saneamento básico e de uma política para universalizar o atendimento médico no nível da atenção básica
d) Falta de profissionais em todas as categorias da saúde, como médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentistas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, biomédicos e agentes de saúde pública
e) Cuba

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.